Sunday, December 31, 2006

O elixir da eterna juventude

Estou velho!
dói-me o joelho
dói-me parte do antebraço
dói-me a parte interna
de uma perna
e parte amiga
da barriga
que fadiga
o que é que eu faço?
escolho o baço ou o almoço?
vira o osso
dói o pescoço
é do excesso
do ex-sexo
alvoroço
reboliço
perco o viço
já soluço
já sobrosso
esmiúço os meus sintomas
e já agora, do meu médico os diplomas
esmiúço a consciência
e já agora, apresento a penitência

Ah que estou arrependido
de ter feito e de ter tido
ai oração, ora seja
como a que ouvi na igreja

Mea culpa, mea culpa
minha máxima desculpa
é ter vindo p´ro presente
conservado em aguardente

Quero ser p´ra sempre jovem
as minhas células movem
uma campanha eficaz
água benta e água-raz

O elixir da eterna juventude
esse que quer que tudo mude
p´ra que tudo fique igual
estava marado
falsificado
é desleal!

Vou implorar aos apóstolos
mas é pior, que desgosto-os
com tanto pecado junto
não lhes pega nem o unto

Vou recorrer aos meus santos
esses, ao menos, são tantos
que há-de haver um que me acuda
senão ainda tenho o Buda

Maomé vai à montanha
o papa, ninguém o apanha
na Rússia, o rato rói a rolha
venha o diabo e escolha

O elixir da eterna juventude
esse que quer que tudo mude
p´ra que tudo fique igual
estava marado
falsificado
é desleal!

Misticismo agora à parte
envelhecer é uma arte
"arte-nova", "arte-final"
numa luta desigual

Só me vou pôr de joelhos
ante o mais velho dos velhos
e perguntar-lhes o segredo
de p´ra ele inda ser cedo

Quando o espelho me mira
já nem o chapéu me tira
deito-lhe a língua de fora
pisco o olho e vou-me embora

O elixir da eterna juventude
esse que quer que tudo mude
p´ra que tudo fique igual
estava marado
falsificado
é desleal!

Sérgio Godinho - O Elixir Da Eterna Juventude

Monday, December 11, 2006

"Psiquiatras, psicólogos e outros doentes"


Saber a que se dedicam os psiquiatras é tão difícil como saber a que se dedicam os psicólogos. Antes de ir ao consultório do meu cunhado Ernesto, eu tinha apenas uma noção muito vaga das funções da psiquiatria. Depois de ir à sua consulta e a mais outras dez ou doze consultas de psiquiatras e psicólogos já nem sequer tenho essa vaga noção. Cheguei à conclusão de que ninguém sabe com muita certeza o que é a psiquiatria ou a psicologia, nem aquilo que as diferencia, e que a principal ocupação de psiquiatras e psicólogos é tratar de averiguar quem são eles e a que se dedicam. É como se o meu pai e eu, em vez de nos preocuparmos em vender elevadores e em melhorar os nossos produtos e serviços, dedicássemos metade do tempo a dissertar sobre a nossa função na sociedade e sobre a história dos elevadores no Ocidente. Bem, na realidade isso é o que faz o meu pai.

Eu nunca perguntei a nenhum psiquiatra ou psicólogo - Deus me livre de semelhante atrevimento - em que consistia o seu trabalho, evidentemente. Mas são eles que sistematicamente se empenham em explicar-me qual é a sua função, quais as sua obrigações, quais os seus desafios na construção de um homem melhor no século XXI. É incrível. Entramos no consultório e, antes de nos perguntarem como estamos ou como nos corre a vida, já nos estão a dizer coisas como: «Um psicólogo não é ninguém importante, é apenas esse amigo com quem nos atrevemos a falar.» Mas quando já estamos há algum tempo com eles, também nos podem dizer coisas como: «Olhe, a minha função como psicólogo não é a de dizer-lhe tudo o que quer ouvir»; ou: «Você engana-se se pensa que eu só estou aqui para lhe passar as receitas.»

Eu creio que no fundo estas pessoas têm um problema de identidade e que todas elas necessitariam de um tratamento psicológico, se eventualmente conseguissem pôr-se de acordo sobre o que isso significa. Pela minha parte, desisti há muito tempo de obter uma ideia clara sobre a Ordem e preferi agarrar-me à ideia que já tinha do psiquiatra como a pessoa que cura as doenças mentais, mesmo que eles não parem de me dizer o contrário, ou o contrário do contrário.

Rodrigo Muñoz Avia, Ambar, 2006 (início do capítulo 3)

Friday, November 24, 2006

António Gedeão, cem anos

Álvaro Gois,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Catanhede,
pedreiros de profissão,
de sombrias cataduras
como bisontes lendários,
modelam ternas figuras
na lentidão dos calcários.

Ali, no esconso recanto,
só o túmulo, e mais nada,
suspenso no roxo pranto
de uma fresta geminada.
Mas no silêncio da nave,
como um cinzel que batuca,
soa sempre um truca…truca…
lento, pausado, suave,
truca, truca, truca, truca,
sob a abóbada romântica,
como um cinzel que batuca
numa insistência satânica:
truca, truca, truca, truca,
truca, truca, truca, truca.

Álvaro Gois,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Cantanhede,
ambos vivos ali estão,
truca, truca, truca, truca,
vestidos de sunobeco
e acocorados no chão,
truca, truca, truca, truca.

No friso, largo de um palmo,
que dá volta a toda a arca,
um Cristo, de gesto calmo,
assiste ao chegar da barca.
Homens de vária feição,
barrigudos e contentes,
mostram, no riso dos dentes
o gozo da salvação.
Anjinhos de longas vestes,
e cabelo aos caracóis,
tocam pífaros celestes,
entre cometas e sóis.
Mulheres e homens, sem paz,
esgazeados de remorsos,
desistem de fazer esforços,
entregam-se a Satanás.

Fixando a pedra, mirando-a,
quanto mais o olhar se educa,
mais se estende o truca…truca…
que enche a nave, transbordando-a,
truca, truca, truca, truca
truca, truca, truca, truca.

No desmedido caixão,
grande sonhor ali jaz.
Pupilo de Satanás?
Alma pura, de eleição?
Dom Afonso ou Dom João?
Para o caso tanto faz.


António Gedeão, Poema de pedra lioz, 1958

Thursday, November 09, 2006

A diferença entre um quiosque e a blogosfera

José Pacheco Pereira

Se eu olhar para um quiosque de jornais como muita gente olha para os blogues, o que eu vejo é isto: Maria, O Jornal do Crime, A Mãe Ideal, Novenas Milagrosas, Lux, VIP, Nova Gente, Maxman, o Borda de Água, PÚBLICO, Flash!, Única, 24 Horas, Nova Cidadania, TV Guia, TV Mais, Ana, Teleculinária, MM, Saúde, Record, Atlântico, A Bola, Autosport, Correio da Manhã, O Diabo, uns títulos em ucraniano, o Guia Astrológico, Os Meus Livros, Cosmopolitan, Prevenir, Sporting, Blitz, Guia Astral, Mini-Recreio, Activa, GQ, Diário de Notícias, Selecções...
Se abrir as folhas ao acaso, como se consultar blogues ao acaso, coisas sinistras estão sempre a cair de dentro das folhas: notícias falsas, especulações, falsidades anónimas, plágios, voyeurismo, egos à prova de bala, ignorância, erros, invejas, ajustes de contas, presunção, arrogância, esquemas diversos, banha da cobra, cobras. Há gente que fala com Deus e gente que namora o Diabo, há quem coma a namorada, como o Dr. Lecter, há o professor Karamba, e há umas meninas para todos os gostos, há extraterrestres, boatos, insinuações, muita "informação" anónima, pornografia strictu sensu, pornografia intelectual, quartos à hora, hotéis à noite, etc., etc. Uma selvajaria, o Mundo Cão, o Faroeste, os baixos fundos, o jet set, um conde, o tatuador, a tatuada, a esposa, o marido, a amante, o escroque, o bondoso, o franciscano e o tolo...
Ah! Diz-me uma voz, mas estás a misturar tudo! Pois estou, é como fazem os que falam dos blogues misturando tudo, como Miguel Sousa Tavares e Eduardo Prado Coelho fizeram recentemente para se defenderem (o que é legítimo) de acusações e falsificações anónimas. É verdade que os jornais e revistas têm responsáveis e não são como as cartas anónimas, ou os blogues que funcionam como cartas anónimas, mas quando os primeiros transcrevem os segundos ficam iguais. No caso do Miguel Sousa Tavares, o que falhou foi a imprensa tradicional, que aceitou citar fontes anónimas, sem um julgamento de mérito. A notícia não é que um blogue anónimo acuse Miguel Sousa Tavares de plágio, a notícia é que Miguel Sousa Tavares cometeu plágio, se o tivesse cometido, e aí o autor da notícia devia fazer o seu próprio julgamento e só publicar caso esse julgamento fosse que sim. Não sendo, o blogue é como uma carta anónima, incitável e inaceitável. Foi isso que falhou e hoje em dia falha cada vez mais, porque a comunicação social escrita precisa de pretextos para violar as regras de que se gaba como sendo distintivas e, na Internet, encontra-os com facilidade, entrando depois facilmente na selvajaria. Está lá no computador, para milhões verem, por isso está "publicado", logo posso citar e levar a sério, sem ter responsabilidade.
O mal não está nos blogues em si, está na nossa incapacidade para ler e escrever blogues, como para ler e escrever jornais com uma decência mínima. O problema é mais comum do que se pensa, embora seja verdade que as pessoas se sentem mais impotentes para se defenderem da Internet do que no mundo da comunicação social tradicional, mas o que é crime cá fora é crime lá dentro.
Mas a reacção aos blogues, selvagens, inúteis, desviadores da atenção, perdulários do nosso tempo, oculta-nos muita coisa de interessante que está a passar-se diante dos nossos olhos e que não percebemos porque os vemos tão misturados como o Jornal do Crime está com o PÚBLICO no quiosque de jornais, ou como se o PÚBLICO para falar de ciência citasse o Guia Astrológico como fonte. Os blogues são apenas uma das pontas do mundo novo em que já estamos, uma pequena ponta, mas tão reveladora que mesmo estes episódios lesivos de Miguel Sousa Tavares (acusado de plágio) e de Eduardo Prado Coelho (que tem um texto falso a circular na Rede) são dele sinal. Ora nunca ninguém disse que era o Admirável Mundo Novo, a não ser os utopistas que pensam que as tecnologias mudam o mundo sem o pano de fundo das sociedades onde elas existem.
Vamos admitir, o que não me custa nada, porque até acho que é verdade, que mais de 90 por cento do que está na blogosfera é lixo. Temos em seguida que convir que também 90 por cento do que está nos quiosques é lixo, a julgar pelo nosso quiosque. Não é por aí que se faz a diferença. Para isso é preciso olhar com um pouco mais de atenção quer para os 90 por cento de lixo, quer para os 10 por cento sobrantes, porque, tendo muita coisa em comum, têm também diferenças importantes. Para se perceber o que está a mudar no conjunto do sistema comunicacional temos que analisar o lixo e o luxo na Rede.
O lixo nos blogues, como antes (e agora) o lixo na Rede têm muito de comum com o lixo nos diários pessoais, nos jornais locais, nos boletins de paróquia, nas rádios locais, nos panfletos partidários, nas cartas anónimas, na pequena, grande e média comunicação social, nessa imensa voz entre sussurrada e gritada que nos acompanha sempre, na maioria dos casos como pura estática, lixo escrito, lixo dito, lixo visto. Mas tem diferenças interessantes como esta que não é meramente quantitativa: mais indivíduos falam na Rede do que alguma vez falaram em jornais, revistas, diários, cartas anónimas ou assinadas. O número espantoso dos milhões de blogues, com o seu crescimento exponencial, é um fenómeno radicalmente novo. Estes milhões de pessoas que escrevem na Rede, em nome próprio, com pseudónimos ou anonimamente, são uma manifestação da principal característica das sociedades pós-industriais, as que nasceram em espaços urbanos dominados por serviços, pela produção, distribuição e consumo de informação - são sociedades de massas, onde impera o que antigamente se chamava "psicologia de massas". São ainda poucos, mas são o primeiro destacamento, o destacamento loquaz, o que anuncia o que aí vem, os que ocupam o espaço público com as suas vozes no mesmo movimento com que um centro comercial se enche quando abre as portas às 10 da manhã, ou o prime time das novelas fica habitado das suas audiências, ou as praias do Algarve e os estádios de futebol se enchem.
Essas pessoas falam porque têm alguma coisa a dizer? Acrescentam alguma coisa ou são elas mesmo um sinal de cacofonia? Depende como se vê a questão: elas têm alguma coisa a dizer porque querem dizer alguma coisa - essencialmente que existem e que são elas que vão mandar, que são elas que já mandam. O que têm a dizer não é novo, é ruído, é pobre, é insignificante em termos culturais, estéticos, criadores, mas é a voz que fala cada vez mais alto, a voz que se ouve, a estática gerada pelas multidões e que exige ser ouvida nas sondagens, nas pseudo-sondagens dos telefonemas para dizer sim ou não, nas audiências da televisão, a que não quer esperar, não quer delegar, não quer aprender, não quer sofrer. Quer tudo e já, e só não o tem porque os "políticos" a enganam e desviam.
O número dos blogues significa que também, pouco a pouco, as massas das sociedades de massas chegam à Rede como nunca antes chegaram aos jornais ou chegam hoje à televisão. Trazem com elas aquilo que antes, nos primeiros parágrafos deste texto, chamei "selvajaria": não querem mediações, que são o poder do passado, o poder dos intelectuais, o poder dos antigos poderosos. Querem democracia "participativa", não querem democracia representativa, não querem saber de nada que possa significar privilégio dos sábios, ricos e poderosos. Não prezam a intimidade e a privacidade, porque no seu mundo não existem e não são valores, não prezam a propriedade porque a têm pouco, são anti-intelectuais, combatem todos os que parecem atentar ao seu igualitarismo funcional e punem-nos na Rede como gostariam de os punir cá fora: "é bem feito" é a expressão que mais se ouve por todo o lado. Miguel Sousa Tavares é "arrogante", o "povo" acusa-te de plágio; Eduardo Prado Coelho mandaste na intelectualidade durante muito tempo, leva lá com um texto falso para aprenderes que aqui somos todos iguais! Por bizarro que pareça, tudo isto foi escrito em linha, quer em caixas de comentários, as furnas da Internet, quer nos blogues anónimos e ignorados, os degraus superiores do Inferno.
É por isto que os blogues são interessantes, porque se move ali um monstro, que existe bem fora dos electrões. Esse monstro fala - nos blogues e nos jornais - e nós não o queremos ouvir porque ele nos coloca em causa, coloca em causa o lugar que ocupamos. Ele luta ali pelas suas regras próprias e não pelas que tomamos por adquiridas e, desse ponto de vista, convém conhecê-lo muito bem. É por isso que se aprende mesmo com os 90 por cento de lixo na blogosfera. E aprende-se ainda melhor se olharmos para o 10 por cento que não é lixo, porque para essa parte da Rede irá migrar uma parte mais dinâmica do espaço público, que conhece melhor o monstro e que já fez a prova do monstro.
Tratar os blogues como um quiosque dos jornais indiferenciado é deitar fora o menino com a água do banho. Vamos em seguida falar dos 10 por cento, número optimista, eu sei.

José Pacheco Pereira - Público de hoje


Tuesday, October 24, 2006

Défice democrático

Na semana passada, o secretário de Estado adjunto e da Educação, Jorge Pedreira, declarou a disponibilidade do Ministério da Educação para continuar a discutir o Estatuto da Carreira Docente com os sindicatos e mesmo para fazer algumas cedências nessa matéria que considerava aceitáveis, desde que os professores pusessem fim ao "clima de conflitualidade" e às suas "acções de luta".

Também na semana passada, o presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Rio, decidiu gerir o conflito com uma companhia de teatro que fez um sit-in no Rivoli, em defesa da manutenção da gestão pública daquele teatro, recusando-se a manter qualquer diálogo com os manifestantes, cortando-lhes a electricidade e a água, baixando a temperatura do teatro para os vencer pelo frio e fechando-lhes as portas de forma a impedir o seu contacto com o exterior. Os manifestantes acabariam por ser retirados de madrugada pela polícia (sem oferecer resistência) depois de mais de três dias de ocupação.

Ambos os episódios são exemplos de como os políticos portugueses continuam a conviver mal com o confronto democrático e a contestação e de como o seu sentimento de autoridade é tão frágil que receiam pô-lo em causa, caso enveredem por uma simples discussão com os seus críticos. Se no caso do Rivoli se podia invocar o (débil) argumento da legalidade (ainda que os sit-ins, manifestações pacíficas, tenham uma honrosa genealogia que vai de Gandhi ao movimento dos direitos cívicos nos EUA), no caso das manifestações e protestos dos professores nem esse existia - o que não impediu o secretário de Estado de tentar a sua jogada autocrática e censória.

Um amigo dizia-me há dias que em Portugal não é possível ter uma boa discussão - nem sequer entre amigos. As pessoas fogem do confronto, sentem-se mal perante as diferenças de opinião e levam as opiniões tão a peito que sentem as diferenças como afrontas que ferem os sentimentos mais do que excitam a razão e que podem danificar amizades sem com isso aprofundar a verdade. Por isso, disfarçam as diferenças até cair no falso consenso. A maior parte das discussões acaba à nascença, com o "ah, mas eu não acho nada disso" que devia ser o sinal de partida para uma viva troca de argumentos.

Que os portugueses comuns fujam da discussão como o diabo da cruz, enfim. O que não se compreende nem se aceita é que os políticos apenas saibam gerir o confronto político recorrendo à chantagem ou à polícia.

Numa democracia liberal, o confronto das ideias e a negociação entre interesses legítimos é central ao processo de decisão. E pagamos aos políticos (entre outras coisas) para que eles participem nesse confronto de ideias, discutam, ouçam e depois decidam e executem. Esse confronto deveria, aliás, ser bem-vindo pelos políticos, já que ele estimula a participação democrática e contribui para o esclarecimento. Que esse confronto de ideias se realize num pano de fundo de conflitualidade social (com manifestações, greves e sit-ins) é um dos preços da democracia.

Se um político tiver a pele tão fina que não suporte participar nessa discussão, deve abster-se de se apresentar ao povo como governante ou autarca. E se considera que esse confronto de ideias deve ser reprimido pela força, não tem lugar num sistema democrático. Os políticos deveriam, pelo contrário, agradecer estas oportunidades, mediáticas por natureza, de explicar a bondade das suas políticas aos seus concidadãos. A utilização da força e da chantagem sugerem, com razão ou sem ela, que não possuem argumentos para apresentar ou que receiam o escrutínio do debate público.

A lamentável declaração de Jorge Pedreira é inaceitável em democracia e deveria ter sido objecto de um pedido de desculpas e de uma demissão. E o gesto de Rui Rio é mais um sinal da autoritária insegurança a que o autarca do Porto já nos habituou.

José Vítor Malheiros, Público de 24 de Outubro de 2006

Saturday, October 07, 2006

Que farei quando tudo arde?*

Geneviève Ferone: Há uma economia que precisa de se "descarbonizar"
Por Géraldine Correia

Géraldine Correia: Como entrou neste mundo socialmente responsável?

Geneviève Ferone: Depois da minha formação, queria trabalhar nas Nações Unidas, em questões sociais. Foi o que fiz e repeti na OCDE, sobretudo em questões ligadas à energia e ambiente. Estive também no HCR (Alto Comissariado dos Refugiados). Depois parti para os Estados Unidos, para um gabinete de advogados em Los Angeles, e abriu-se em seguida um gabinete estratégico em São Francisco. Era paga para ser os olhos e os ouvidos de clientes franceses das finanças. Reparei então que os investimentos "verdes" ou ambientais eram praticados de forma séria pelos fundos de pensões da Califórnia. Havia sempre um investimento dos fundos em negócios sociais e ambientais, com um desejo de retorno do investimento, uma rentabilidade a longo prazo.

Foi aí que teve contacto com o rating social?

Tive encontros com todos os fundos de pensões americanos. Os conselhos de administração reflectem as minorias, sindicatos, etc. Por isso, verifiquei que havia um duplo empenho: no desenvolvimento social e na vontade de proteger as reformas, ou seja, um imperativo de rendibilidade. Organizei então viagens de estudo para clientes europeus e percebi que havia um mercado potencial. O rating social era uma informação com peso para clientes que investem a longo prazo.

E como é que este rating pesa nos investimentos?

Uma empresa que não capta as condições ambientais, que tem crianças a trabalhar nas suas fábricas, entre outras situações, tem um perfil de risco importante. É um risco para a sua imagem, mesmo que não pese financeiramente. O rating dá uma nota às empresas e traduz a adequação da gestão face às questões do desenvolvimento sustentável. Lancei este conceito em 1996 e passei a vender informações a uma clientela europeia de fundos de investimento. Por acaso calhou bem na época, por uma questão de moda, e até fui criticada por julgarem que seria um desafio passageiro. Mas um grande banco, por exemplo, prefere oferecer ao cliente um portfolio diversificado, com empresas bem cotadas no desenvolvimento sustentável. Mesmo que os bancos adoptem esta prática apenas por questões cosméticas ou de marketing, acaba por valer a pena.

Qual a diferença em relação a agências de rating semelhantes nos Estados Unidos?

Nos Estados Unidos são aplicados critérios morais de exclusão. Não se investe em empresas no sector da pornografia, dos cigarros, álcool ou armas. Em França, a ARESE começou a dar notas a todos os sectores, porque podem vender-se produtos tóxicos de forma responsável e produtos para bebé com práticas duvidosas, e o objectivo é a melhoria das práticas em todos os sectores. Mais tarde, na CoreRatings, que fundei a seguir, continuei a minha batalha, apesar de sarcasmos de organizações não governamentais [ONG] sobre os meus métodos cooperativos. Mas não podemos mudar nada se não convencermos as pessoas do interesse de mudarem. Um dia os critérios sociais e ambientais estarão ao mesmo nível dos financeiros pela vontade de gerir melhor os riscos, atrair empregados melhores, melhorar a sua imagem, ou mesmo evitar processos.

Como reagem as empresas submetidas a análise?

Esse é o segundo impacto que se pode ter no mercado: as empresas analisadas perceberam que havia questões que assumiam uma importância estratégica. No que respeita ao ambiente, a energia está a tornar-se um bem raro. O protocolo de Quioto abriu um mercado financeiro verde, com as quotas permitidas de CO2, etc. O desenvolvimento sustentável começou a ter um impacto visível nas contas das empresas, quer directamente, através das quotas para os sectores do cimento, siderúrgicas, petrolíferas e de serviços específicos, quer indirectamente, como no sector automóvel. O sector dos transportes vai depender de inovações a muito curto prazo para respeitar uma fiscalidade verde que cobra as emissões de CO2 por automóvel. Nos biocombustíveis estamos no limiar de grandes mutações. Na aeronáutica será ainda mais marcante, porque nos aviões não existe ainda alternativa ao petróleo, e o impacto poluente no ambiente é dramático - a problemática é dupla. A indústria química está também em jogo - por isso se procura desenvolver a todo o custo a biotecnologia, processos mais naturais que recorram menos a substâncias tóxicas.

Há uma nova economia a nascer?

Há uma economia que precisa de se "descarbonizar". Toda a logística vai mudar. O petróleo é raro e finito, logo não é viável continuar a pensar que os transportes de mercadoria se façam por camião. A construção civil precisa de se adaptar com prédios novos bem isolados - é sabido que 25 a 30 por cento dos gases do efeito de estufa vêm da falta de isolamento de habitações. Tudo isto está documentado e sabemos exactamente o que está a agravar as coisas e o que é preciso mudar. Há uma necessidade premente de optimizar a energia.

As coisas estão a mudar nesse sentido?

O petróleo ainda não é suficientemente caro para que haja uma ruptura dos comportamentos e dos modelos de rentabilidade. Mas em França, por exemplo, sabemos que uma casa bem isolada e preparada com vários tipos de energia custa em média mais sete por cento. O importante para o consumidor é que em cinco anos pode poupar até 70 por cento nas suas facturas de energia. O momento é crucial, porque por um lado é preciso mudar depressa, mas por outro o parque imobiliário renova-se apenas ao ritmo de um por cento por ano, o que significa que há um mercado também para a reabilitação de habitações já existentes. O mercado quer uma rendibilidade imediata, mas se esperar demasiado também será tarde demais.

Quais são os outros factores graves a nível social?

Temos de pensar a longo prazo em formação para mudar hábitos, equidade e diversidade cultural. As empresas têm de lá chegar porque os riscos são dramáticos a médio prazo. Uma mão-de-obra inexistente, por exemplo, devido ao envelhecimento das populações, ou clandestina, provoca desequilíbrios na sociedade. Há questões que deixam de fazer sentido, como a deslocalização. A China ou Índia, mais cedo ou mais tarde, terão uma mão-de-obra mais cara e deixa de ser sustentável deslocalizar para depois reenviar uma produção por barcos que funcionam com um combustível finito, raro e caro... Em poucos anos, o repatriamento de mercadorias tornará a questão do outsourcing obsoleta.

Quais as consequências disso?

A questão da energia toca cada vez mais a carteira e a vida das pessoas. Coloca problemas no âmbito da biodiversidade, com espécies em desaparecimento, rupturas na cadeia alimentar do planeta e pandemias como a da gripe das aves. Há claramente uma mutação do modelo de sociedade. A situação demográfica exige um reequilíbrio das forças económicas e, ao mesmo tempo, a sociedade exige transparência. Com o escândalo que levou a promulgar a lei de Sarbanes-Oxley, as empresas foram forçadas a uma postura mais clara e a concertações com ONG por vezes muito duras, que perturbam e influenciam o jogo económico.

Como se situam as economias emergentes neste âmbito?

O Ocidente envia lixo para África, por exemplo - como é que as pessoas desse continente vão reagir, a prazo, por serem depósitos de resíduos e desperdícios de países ricos? Como é que isso influencia o jogo económico mundial? Os chineses e indianos vão desejar também ter o seu apartamento com ar condicionado, dois carros, etc. O Ocidente dá-lhes poder de compra, mas depois vai dizer-lhes que não podem poluir, que há efeitos adversos no clima e na energia... Fala-se em voltar a uma economia do carvão - é um desastre para o ambiente. Em suma, a equação da demografia em queda e crescimento de populações de economias emergentes e da subida do nível de vida e vontade de consumo é explosiva. Se associarmos a esta a equação da energia e do clima, é fácil perceber por que estamos num ponto de viragem. Sabemos que se houver um crescimento de dois por cento ao ano, em poucos anos não existirá nem mais uma gota de petróleo ou gás, ou seja, nada que possa alimentar o motor económico.

Como aborda estes temas com as empresas que analisa?

Estes números criam ansiedade e percebi, em conferências, que as pessoas ficavam rancorosas ou mesmo agressivas comigo ou, no limite, entravam em estratégias de negação. Não tenho uma postura ideológica, mas há factos, como a inércia do CO2, que devem ser considerados - uma tonelada de CO2 fica dez anos na atmosfera, os gases do ar condicionado ficam 50 mil anos na atmosfera terrestre. O que já está vai perdurar muito, por isso todos os gestos são importantes para travar futuras poluições - separar o lixo, valorizar os recursos. O desenvolvimento sustentável depende tanto dos comportamentos como de tecnologias milagrosas. É provável que nos tenhamos de habituar a viver com mais calor no Verão, mais frio no Inverno. Mas vá dizer isso a economias emergentes...

Quem está a dar cartas nesta área?

É curioso como as petrolíferas detêm todas as patentes de energia solar - este mercado está cativo. O nuclear será a ponte durante uns tempos, com os riscos que conhecemos e populações a recusar centrais... Vivemos numa bolha de champanhe, com um conforto gigantesco a um preço mínimo. Ainda estamos numa atitude de negação. Nesta fase de transição, vão surgir serviços em alta, como a gestão de facturas energéticas. Uma empresa especializada virá a nossa casa, colocará energia solar para a água, caldeira, biomassa para o aquecimento central, etc. Haverá uma gestão com manutenção e pagaremos uma renda por esse serviço. Quando comprarmos um carro, haverá uma manutenção: o fabricante retomará o carro quando for um resíduo, para reciclá-lo. O futuro está numa desmaterialização da economia. Estamos mal habituados, porque queremos tudo novo. Na construção, por exemplo, as empresas usam asfalto novo. Porquê? Porque não recuperar asfalto usado e reaplicá-lo?

E porque acha que isso acontece?

Há uma grande margem de manobra na construção. Na Eiffage, por exemplo, o rating é favorável por estar próxima do terreno, ter empregados accionistas, etc. Está constantemente a criar protótipos para encontrar soluções na construção civil. Nasceu assim uma proposta de edifício de energia positiva em Lyon, a nova sede da empresa, com células fotovoltaicas nas fachadas para aquecimento, climatização fraca, menos estacionamento para que as pessoas venham de transportes, etc. O edifício vai produzir mais energia do que aquela que consome. Fazem também estradas asfaltadas a baixa temperatura, com materiais reciclados, e conseguiram já fazer funcionar um lar da terceira idade com energias renováveis. Estão numa problemática de arquitectura bioclimática, mas no fundo querem garantir a sua sobrevivência.

O que deve ser considerado para mudar?

O importante é prever questões que vão tornar-se rapidamente maduras, no âmbito de quatro grandes questões. Existem as questões latentes, como a nanotecnologia, cujos efeitos não conhecemos ainda muito bem, e as questões emergentes - são as de que falam os jornais, como a biodiversidade, ou direitos humanos. Depois há as questões maduras, como as energias renováveis, a eco-construção, a diversidade cultural nas empresas, etc., problemas ditos inteligentes. Finalmente temos as questões institucionais, com a legislação, as quotas de CO2, tratamento de resíduos, igualdade salarial entre homens e mulheres, higiene e segurança, etc. O truque está em perceber o que vai passar de latente a emergente ou maduro, e tentar agir correctamente para que não seja necessário passar para a questão institucional. As empresas reúnem-se a todo o custo em lobbies, como o WBCSD - World Business Council for Sustainable Development, para tentar mostrar à sociedade que estão atentas e reconhecem que há problemas... Os processos avançam muito rapidamente. As empresas reagem de forma defensiva, limitam-se a gerir riscos ou navegam à vista, gerindo apenas as questões institucionais. Outras escolhem a inovação e ruptura estratégica - são as start ups que preparam um novo mundo.

DiaD de 6 de Outubro de 2006, Público

* Título roubado de António Lobo Antunes por sugestão da Elipse

Saturday, September 16, 2006

O primeiro dia

A princípio é simples anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se come-se e alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se um descanso por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Sérgio Godinho

Saturday, September 09, 2006

Imagine

Imagine there's no Heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today

Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace

You may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world

You may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will live as one

John Lennon

Wednesday, August 30, 2006

IF

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don't deal in lies,
Or, being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build 'em up with wornout tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on";

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man my son!

Rudyard Kipling

Sunday, August 27, 2006

Zumbido



Comfortably numb

Hello, hello, hello
Is there anybody in there?
Just nod if you can hear me.
Is there anyone at home?

Come on, come on down,
I hear you’re feeling down.
Well I can ease your pain,
Get you on your feet again.

Relax, relax, relax
I need some information first.
Just the basic facts.
Can you show me where it hurts?

There is no pain, you are receding.
A distant ship's smoke on the horizon.
You are only coming through in waves.
Your lips move, but I can’t hear what you’re saying.

When I was a child, I had a fever.
My hands felt just like two balloons.
Now I’ve got that feeling once again.
I can’t explain, you would not understand.
This is not how I am.

I have become comfortably numb.

I have become comfortably numb.

OK, OK, OK
Just a little pin prick.
There’ll be no more, aaaaaaaaaaaahhhhhhhhh,
But you may feel a little sick.

Can you stand up, stand up, stand up.
I do believe it's working good.
That’ll keep you going for the show.
Come on, it’s time to go.

There is no pain, you are receding.
A distant ship's smoke on the horizon.
You are only coming through in waves.
Your lips move, but I can’t hear what you’re saying.

When I was a child, I caught a fleeting glimpse
Out of the corner of my eye.
I turned to look, but it was gone.
I cannot put my finger on it now.
The child has grown, the dream is gone.

I have become comfortably numb.


Roger Waters, David Gilmour - The Wall (1979)

Monday, August 21, 2006

Não é verdade

Cai, como antigamente, das estrelas
Um frio que se espalha na cidade.
Não é noite nem dia, é o tempo ardente
Da memória das coisas sem idade.

O que sonhei cabe nas tuas mãos
Gastas a tecer melancolia:
Um país crescendo em liberdade,
Entre medas de trigo e alegria.

Porém a morte passeia nos quartos,
Ronda as esquinas, entra nos navios,
O seu olhar é verde, o seu vestido branco,
Cheiram a cinza os seus dedos frios.

Entre um céu sem cor e montes de carvão
O ardor das estações cai apodrecido;
Os mastros e as casas escorrem sombra,
Só o sangue brilha endurecido.

Não é verdade tanta loja de perfumes,
Não é verdade tanta rosa decepada,
Tanta ponte de fumo, tanta roupa escura,
Tanto relógio, tanta pomba assassinada.

Não quero para mim tanto veneno,
Tanta madrugada varrida pelo gelo,
Nem olhos pintados onde morre o dia,
Nem beijos de lágrimas no meu cabelo.

Amanhece.
Um galo risca o silêncio
Desenhando o teu rosto nos telhados.
Eu falo do jardim onde começa
Um dia claro de amantes enlaçados.


Eugénio de Andrade

Sunday, August 13, 2006

Todo o Mundo

Personagens: Ninguém, Todo-o-mundo, Berzebu e Dinato.
[Estão em cena dois diabos, Berzebu e Dinato, este preparado para escrever]
Entra Todo o Mundo, homem como rico mercador, e faz que anda buscando algua cousa que se lhe perdeu. E logo após ele um homem vestido como pobre. Este se chama Ninguém, e diz:

NinguémQue andas tu i buscando
Todo o Mundo Mil cousas ando a buscar:
delas não posso achar,
porém ando perfiando
por quão bom é perfiar.
NinguémComo hás, nome, cavaleiro?
Todo o MundoEu hei nome Todo o Mundo,
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro,
e sempre nisso me fundo.
NinguémE eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência.
Berzebu para DinatoEsta é boa experiência!
Dinato, escreve isto bem.
DinatoQue escreverei, companheiro?
BerzebuQue Ninguém busca consciência,
e Todo o Mundo dinheiro.
Ninguém para Todo o MundoE agora que buscas lá?
Todo o MundoBusco honra muito grande.
NinguémE eu virtude, que Deos mande
que tope co' ela já.
Berzebu para DinatoOutra adição nos acude:
escreve logo e a fundo,
que busca honra Todo o Mundo
e Ninguém busca virtude.
NinguémBuscas outro mor bem qu' esse?
Todo o MundoBusco mais quem me louvasse
tudo quanto eu fezesse
NinguémE eu quem me repreendesse
em cada coisa que errasse.
Berzebu para DinatoEscreve mais.
DinatoQue tens sabido?
BerzebuQue quer em extremo grado
Todo o Mundo ser louvado
e Ninguém ser repreendido.
Ninguém para Todo o MundoBuscas mais, amigo meu?
Todo o MundoBusco a vida e quem ma dê.
NinguémA vida não sei que é,
a morte conheço eu.
Berzebu para DinatoEscreve lá outra sorte
DinatoQue sorte?
BerzebuMuito garrida.
Todo o Mundo busca a vida,
e Ninguém conhece a morte.
Todo o Mundo para NinguémE mais queria o paraíso,
sem mo ninguém estorvar.
NinguémE eu ponho-me a pagar
quanto devo pera isso.
Berzebu para DinatoEscreve com muito aviso.
DinatoQue escreverei?
BerzebuQue Todo o Mundo quer paraído
e Ninguém paga o que deve.
Todo o Mundo para NinguémFolgo muito de enganar,
e mentir naceo comigo.
NinguémEu sempre verdade digo,
sem nunca me desviar.
Berzebu para DinatoOra escreve lá, compadre
não sejas tu preguiçoso!
DinatoQuê?
BerzebuQue Todo o Mundo é mentiroso,
e Ninguém diz a verdade.
Ninguém para Todo o MundoQue mais buscas?
Todo o MundoLisonjar.
NinguémEu sou todo desengano.
Berzebu para DinatoEscreve, ande la mano!
DinatoQue me mandas assentar?
BerzebuPõe aí mui declarado,
não te fique no tinteiro
Todo o Mundo é lisonjeiro,
e Ninguém desenganado.


Gil Vicente, in Auto da Lusitânia (1532)

Thursday, August 10, 2006

O lugar do começo

Primeiro havia
a noite fria
depois a terra
que o céu abraçou
e os dois eram um só
enquanto o tempo
não os separou

Depois o vento
um vento forte
soprou as cores
e imaginou
as coisas frágeis e leves
e a pouco e pouco
o mundo acordou

Não é tarde
fico em casa
conta-me tudo outra vez

Perto
longe
aonde estiver
hei-de sempre ter
um lugar
pra ti

Por fim os homens
ninfas e deuses
que percorriam
o céu e a terra
a tudo deram um nome
e os sons tocaram
as mais altas estrelas

Não é tarde
fico em casa...


Xana, O lugar do começo - Acordar - Rádio Macau

Tuesday, August 08, 2006

Jeito estúpido

Eu sei que eu tenho um jeito
Meio estúpido de ser
E de dizer coisas que podem
Magoar e te ofender
Mas cada um tem o seu jeito
Todo próprio de amar
E de se defender

Você me acusa e só me preocupa
Agrava mais e mais a minha culpa
E eu faço e desfaço, contrafeito
O meu defeito é te amar demais.

Palavras são palavras
E a gente nem percebe
O que disse sem querer
E o que deixou pra depois
Mas o importante é perceber
Que a nossa vida em comum
Depende só e unicamente de nós dois

Eu tento achar um jeito pra explicar
Você bem que podia me aceitar
Eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser
Mas é assim que eu sei te amar.

Isolda/Milton Carlos

Thursday, July 27, 2006

O Náufrago

Foi um suicídio longamente premeditado, pensei, e não um acto espontâneo de desespero.

O Glenn Gould, o nosso amigo e o mais importante virtuoso do piano do século, também só fez 51 anos, pensava eu ao entrar na estalagem. Só que esse não se matou como o Wertheimer mas morreu, como se costuma dizer, de morte natural. Quatro meses e meio em Nova Iorque e sempre, sempre as Variações de Goldberg e A Arte da Fuga, quatro meses e meio de «Klavierexerzitien»* como o Glenn Gould dizia repetidamente e sempre só em alemão, pensava eu.
Há vinte e oito anos exactos havíamos morado em Leopoldskron e estudado com o Horowitz, e (no caso do Wertheimer e no meu, não no de Glenn Gould naturalmente) com o Horowitz tínhamos aprendido mais durante um Verão completo, Verão em que chovera continuamente, do que durante os oito anos anteriores do Mozarteum e da Academia de Viena. O Horowitz tinha reduzido a zero todos os nosso professores. Mas esses horríveis professores foram necessários para nós (...)

*Exercícios de piano (Nota da tradutora).


Thomas Bernhard, O Náufrago (Relógio d'Água - pág. 7 - Tradução de Leopoldina Almeida)

Monday, July 10, 2006

Quadro Abstracto

[...]

- Eu não compreendo as mulheres. Quanto mais as conheço, menos as compreendo. Falam muito, com muitos pormenores, não se calam, são umas perfeitas gralhas. É muito cansativo. A Lena, a minha segunda mulher, era ao contrário. Deprimia, estava sempre de trombas. Primeiro era da gravidez, depois era dos gémeos que não a deixavam dormir, se dormia de mais era porque ficava com dores de cabeça, se dormia de menos andava aos berros pela casa, e nunca sabia nada, eu perguntava-lhe o que é que ela achava disto ou daquilo e ela respondia "não sei". Sempre. Respondia a tudo "não sei". Esta agora que se chama Érnia, a minha actual mulher, então sabe tudo, tem opiniões sobre tudo, anda sempre toda contente, é insuportável.

[...]

Luísa Costa Gomes - Quadro Abstracto in Ler nº 51 (pág. 52) ou Império do Amor - contos - ed. Tinta Permanente (pág. 89)

Friday, July 07, 2006

Sete anos de pastor

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

Luís Vaz de Camões

Saturday, July 01, 2006

A tradução

Ao folhear com entusiasmo e ingenuidade a versão inglesa de certo filósofo chinês, dei com esta memorável passagem:

A um condenado à morte não lhe importa bordejar um precipício, porque renunciou à vida.

Neste ponto, o tradutor colocou um asterisco e advertiu-me que a sua interpretação era preferível à de outro sinólogo rival que traduzia desta maneira:

Os utilizadores destroem as obras de arte, para não terem de julgar as suas belezas e os seus defeitos.

Então, como Paolo e Francesca, deixei de ler. Um misterioso cepticismo tinha-se apoderado da minha alma.

J. L. Borges

Pablo de Santis, A tradução (Asa, 2000 - pag.7)


Thursday, June 29, 2006

Di-gestão


Scott Adams, Expresso (21-10-2004)

Monday, June 26, 2006

La bombe humaine

Je veux vous parler de l'arme de demain
Enfantée du monde, elle en sera la fin
Je veux vous parler de moi, de vous
Je vois à l'intérieur, des images, des couleurs
Qui ne sont pas à moi, qui parfois me font peur
Sensations qui peuvent me rendre fou
Nos sens sont nos fils
nous pauvres marionnettes
Nos sens sont le chemin qui mène droit a nos têtes

La bombe humaine, tu la tiens dans ta main
Tu as l'détonateur juste à côté du cœur
La bombe humaine
C'est toi, elle t'appartient
Si tu laisses quelqu'un prendre en main ton destin, c'est la fin, la fin

Mon père ne dort plus sans prendre ses calmants
Maman ne travaille plus sans ses excitants
Quelqu'un leur vend de quoi tenir le coup
Je suis un électron, bombardé de protons
Le rythme de la ville, c'est ça mon vrai patron
Je suis chargé d'électricité
Si par malheur, au cœur de l'accélérateur
J'rencontre une particule qui m'mette de sale humeur
Oh, faudrait pas que j'me laisse aller
Faudrait pas que j'me laisse aller, non

La bombe humaine, tu la tiens dans ta main
Tu as l'détonateur juste à côté du cœur
La bombe humaine,

C'est toi elle t'appartient
Si tu laisses quelqu'un prendre en main ton destin, c'est la fin

Bombe humaine, c'est l'arme de demain
Bombe humaine, tu la tiens dans ta main
Bombe humaine
C'est toi, elle t'appartient
Si tu laisse quelqu'un prendre ce qui te tient, c'est la fin, la fin

Jean-Louis Aubert, Crache ton Venin (1979) - Téléphone

Friday, June 23, 2006

Português "moderno"

(...)

Para ter algum préstimo, a Academia (das Ciências de Lisboa) devia denunciar a verborreia que de facto usamos e não devíamos.

É recorrente, é fácil, o gozo devotado ao jargão do futebol (o famoso "futebolês", já de si um neologismo imbecil). E o resto? E quem se preocupa com o imenso jargão em que toda a língua parece transformada, repleta de incorrecções semânticas, chavões, vocábulos fora do contexto e puros disparates?

É que não há paciência para a exposição "patente" no "multiusos", a qual, aliás, se "insere" numa "dinâmica" de "cariz" cultural. Não há paciência para autarcas que "fazem cidade" com grande "empenhamento", "nomeadamente", claro, "ao nível" das "sustentabilidades". Não há paciência para médicos que nos mandam "fazer Aspirina" e "fazer gelo" como se fôssemos um laboratório farmacêutico ou uma arca frigorífica. Não há paciência para escritores que "investem" na "vertente" dos "afectos". Não há paciência para cançonetistas cujo último disco "reflecte" determinadas "vivências". Não há paciência para "programadores" televisivos que "apostam" na "multiplicidade" dos "conteúdos". Não há paciência para "vipes" que, talvez para "serem iguais a si próprios", precedem cada grunhido com um "é assim". E não há paciência para governantes que anunciam "desígnios", para deputados que "assumem desafios", e para reles peões partidários que vêem o mundo através da sua "óptica".

Ou seja, "em termos" de Português, não há português em termos. Descemos do idioma de António Vieira a uma babugem retorcida e ridícula.

(...)

Alberto Gonçalves, Sábado (edição de 4 de Maio) pág. 98

Wednesday, June 21, 2006

Prometeu

A lenda tenta explicar o que não se pode explicar; porque vem de um fundamento de verdade, tem de terminar no que não se pode explicar.
De Prometeu conhecemos quatro lendas. Diz a primeira que ele foi agrilhoado ao Cáucaso por ter traído os deuses aos homens e que os deuses enviaram águias que lhe devoravam o fígado que se renovava sem fim.
Diz a segunda que, com a dor das bicadas que o atormentavam, Prometeu se apertou cada vez mais contra a rocha até se tornarem um.
Diz a terceira que passados milhares e milhares de anos a sua traição foi esquecida, os deuses esqueceram, as águias, ele próprio.
Diz a quarta que todos se cansaram do que já não tinha fundamento. Os deuses cansaram-se, as águias. A ferida fechou-se cansada.
Restou o rochedo inexplicável.

Franz Kafka - Contos - Relógio de Água(2005) pág. 41

Tuesday, June 20, 2006

Les mots

            C'est étrange,
            je n'sais pas ce qui m'arrive ce soir,
            Je te regarde comme pour la première fois.
Encore des mots toujours des mots
les mêmes mots
            Je n'sais plus comment te dire,
Rien que des mots
            Mais tu es cette belle histoire d'amour...
que je ne cesserai jamais de lire.
Des mots faciles des mots fragiles
C'était trop beau
            Tu es d'hier et de demain
Bien trop beau
            De toujours ma seule vérité.
Mais c'est fini le temps des rêves
Les souvenirs se fanent aussi
quand on les oublie
            Tu es comme le vent qui fait chanter les violons
            et emporte au loin le parfum des roses.
Caramels, bonbons et chocolats
            Par moments, je ne te comprends pas.
Merci, pas pour moi
Mais tu peux bien les offrir à une autre
qui aime le vent et le parfum des roses
Moi, les mots tendres enrobés de douceur
se posent sur ma bouche mais jamais sur mon cœur
            Une parole encore.
Parole, parole, parole
            Ecoute-moi.
Parole, parole, parole
            Je t'en prie.
Parole, parole, parole
            Je te jure.
Parole, parole, parole, parole, parole
encore des paroles que tu sèmes au vent
            Voilà mon destin te parler....
            te parler comme la première fois.
Encore des mots toujours des mots
les mêmes mots

            Comme j'aimerais que tu me comprennes.
Rien que des mots
            Que tu m'écoutes au moins une fois.
Des mots magiques des mots tactiques
qui sonnent faux
            Tu es mon rêve défendu.
Oui, tellement faux
            Mon seul tourment et mon unique espérance.
Rien ne t'arrête quand tu commences
Si tu savais comme j'ai envie
d'un peu de silence
            Tu es pour moi la seule musique...
            qui fit danser les étoiles sur les dunes
Caramels, bonbons et chocolats
            Si tu n'existais pas déjà je t'inventerais.
Merci, pas pour moi
Mais tu peux bien les offrir à une autre
qui aime les étoiles sur les dunes
Moi, les mots tendres enrobés de douceur
se posent sur ma bouche mais jamais sur mon cœur
            Encore un mot juste une parole
Parole, parole, parole
            Ecoute-moi.
Parole, parole, parole
            Je t'en prie.
Parole, parole, parole
            Je te jure.
Parole, parole, parole, parole, parole
encore des paroles que tu sèmes au vent
            Que tu es belle !
Parole, parole, parole
            Que tu est belle !
Parole, parole, parole
            Que tu es belle !
Parole, parole, parole
            Que tu es belle !
Parole, parole, parole, parole, parole
encore des paroles que tu sèmes au vent


Paroles et Musique: Michaele, M.Chiosso, G.Ferrio 1973

Sunday, June 18, 2006

O sangue

Levando um velho avarento
Uma pedrada num olho,
Pôs-se-lhe no mesmo instante
Tamanho como um repolho.

Certo doutor, não das dúzias,
Mas sim médico perfeito,
Dez moedas lhe pedia
Para o livrar do defeito.

«Dez moedas! ( diz o avaro )
Meu sangue não desperdiço:
Dez moedas por um olho!
O outro dou eu por isso.»


Manuel Maria Barbosa du Bocage

Saturday, June 10, 2006

África minha

«Eu tinha uma fazenda em África...». É esta a primeira frase de uma narrativa que este filme conta com a inteligência de saber mostrar que a primeira frase de uma história é sempre e irrecuperavelmente última de outra coisa.
Eduardo Prado Coelho, Expresso (1980 e tal)

Thursday, June 08, 2006

4 de Janeiro de 1943

Apesar de todo o respeito que parecemos ter por tudo o que está sujeito a perecer, acostumámo-nos facilmente à matança. Beneficiamos de certa maneira desse matança e quase não temos pena das vítimas. Isto não começou com a guerra, já estávamos preparados muito antes de ela começar; só agora parece mais aparente. Não nos retraímos ao ver tantas vidas desaparecerem; nem esses que morreram teriam sofrido alguma coisa se fôssemos nós as vítimas. Não gosto de pensar no que nos governa. Não gosto de pensar nisso. Não é fácil e é perigoso. O menos que nos pode revelar é que os nossos sentidos e a nossa imaginação não são totalmente competentes. O velho Joseph, que, perante a transitoriedade da vida, se opunha ao bater e ao rasgar, disse que lamentava que, com a melhor das boas vontades do mundo, uma pessoa tinha que repartir pelos outros o seu quinhão de escoriações... Escoriações! Que inocência! Sim; ele reconhecia que mesmo os que queriam ser pacíficos não podiam deixar de fustigar os outros. E isto era muito pouco.

Estamos, contudo, como povo, preocupados com a efemeridade; há imensos frigoríficos. Mandam-se gatos de estimação a centenas de quilómetros de distância para serem tratados com soros raros; e os vizinhos de uma aldeia de Arcansas fazem turnos, dia e noite, para salvar a vida de um nonagenário.

Morre Jeff Forman; o meu irmão Amos guarda um arsenal de calçado para o futuro. Amos é bom. Amos não é nenhum canibal. Não pode ouvir dizer que estou em dificuldades, que preciso de dinheiro, que me recuso a preocupar-me com o meu futuro. Jeff, debaixo do mar, está para além da virtude, do valor, do brilho, do dinheiro ou do futuro. Digo estas coisas incapaz de ver ou pensar claramente e o que sinto não é tanto injustiça ou desumanidade como perturbação.

Eu próprio preferia morrer na guerra que consumir os seus benefícios. Irei quando me chamarem e não protestarei. E, é claro, espero sobreviver. Mas antes queria ser vítima do que beneficiar da guerra. Sustento a guerra, embora talvez seja gratuito dizer isto; temos o hábito de fazer com que estas coisas sejam o resultado da moral pessoal ou da vontade própria, o que não são de maneira nenhuma. O equivalente seria dizer que, se Deus realmente existisse, sim, Deus existe. Ele existiria, quer o reconhecêssemos ou não. Mas entre o imperialismo deles e o nosso, se fosse possível uma opinião clara, preferiria o nosso. As alternativas, especialmente as alternativas desejáveis, só crescem em árvores imagináveis.

Sim, eu atirarei, matarei; serei alvejado, e morrerei. Trocar-se-á sangue por meias razões, como em todas as guerras. De qualquer maneira não consigo encontrar um erro contra mim próprio.

Saul Bellow - Na corda bamba - Publicações Dom Quixote (1976) pág.83

Tuesday, June 06, 2006

Teoria da conspiração


Bill Watterson, in Público de 11 de Junho de 1999

Monday, June 05, 2006

Fala do homem nascido

(Chega à boca da cena, e diz:)

Venho da terra assombrada,
do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se faz ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.

António Gedeão , Teatro do Mundo, 1958

Sunday, June 04, 2006

O eterno retorno

Com eterno retorno, em que se tornou a vida portuguesa, volta a leitura, desta vez com um "plano". Pôr a criançada a ler e o público em geral. Muito bem. A ler o quê? Os "clássicos", dizem. Mas que espécie de "clássicos"? Gil Vicente, Camões, Vieira, Garrett, Camilo, Eça, Oliveira Martins, Cesário, Pessoa? Infelizmente, não há "clássicos" que se possam ler: tirando a poesia (um caso complicado), um pouco de Eça, de Camilo e Oliveira Martins, quanto muito. E o inevitável Júlio Dinis, se conseguir passar por "clássico" e se alguém hoje o aturar. O facto é que a literatura portuguesa é pobre. Ainda por cima, os "protegidos" do "plano" não a percebem: nunca viram grande parte das palavras, tropeçam na sintaxe, ignoram as referências. Pegue, por exemplo, um dos promotores do "plano" em, por exemplo, Viagens na Minha Terra ou A Relíquia e explique o que lá está (um centésimo basta). Gostava de assistir.
Não conheço muita gente, gente da minha idade, que leia, apesar de uma educação tradicional. Porquê? Porque ler implica um esforço: de atenção, de inteligência, de memória. Ler é uma actividade e a nossa cultura é quase inteiramente passiva. A televisão, o DVD, a música popular ou a conversa de computador não exigem nada, deixam a pessoa num repouso imperturbado e bovino. Mudar isto equivale a mudar o mundo. Não se faz com um "plano". Claro que o romance de aeroporto se continua a vender, e bem: não puxa pela cabeça e vai matando o tempo. Talvez que Miguel Sousa Tavares (300 mil exemplares só em Portugal, mandou ele corrigir) e Margarida Rebelo Pinto levem a melhor. O Estado missionário não leva com certeza a parte alguma. Ou leva, leva a uns milhares de empregos para burocratas, bibliotecários, "mediadores de leitura" (um truque novo) e para a tropa fandanga do costume.
José Manuel Fernandes lamenta que os portugueses não leiam jornais, sentimento que do coração partilho. Mas também não existe em Portugal uma verdadeira discussão política (nem no Parlamento). A sério, a sério, não se discute coisíssima nenhuma: nem o regime, nem a ideologia do regime, nem religião, nem moral, nem moral social, nem sequer os deploráveis costumes da tribo. Porque iria um cidadão comprar sofregamente o jornal? E por que raio de lógica ler Eça e Camilo (que, de resto, execravam jornalistas) convenceria um adulto (ou uma criança) da bondade da imprensa? Desde o "25 de Abril", Portugal sofreu uma série infinita de obras de misericórdia, para chegar ao poço. É altura de acabar com a brincadeira.

Vasco Pulido Valente - Jornal Público - de 3 de Junho de 2006

Saturday, June 03, 2006

Os treze anos

Já tenho treze anos,
que os fiz por Janeiro:
Madrinha, casai-me
com Pedro Gaiteiro.

Já sou mulherzinha,
já trago sombreiro,
já bailo ao domingo
com as mais no terreiro.

Já não sou Anita,
como era primeiro;
sou a Senhora Ana,
que mora no outeiro.

Nos serões já canto,
nas feiras já feiro,
já não me dá beijos
qualquer passageiro.

Quando levo as patas,
e as deito ao ribeiro,
olho tudo à roda,
de cima do outeiro.

E só se não vejo
ninguém pelo arneiro,
me banho co'as patas
Ao pé do salgueiro.

Miro-me nas águas,
rostinho trigueiro,
que mata de amores
a muito vaqueiro.

Miro-me, olhos pretos
e um riso fagueiro,
que diz a cantiga
que são cativeiro.

Em tudo, madrinha,
já por derradeiro
me vejo mui outra
da que era primeiro.

O meu gibão largo,
de arminho e cordeiro,
já o dei à neta
do Brás cabaneiro,

dizendo-lhe: «Toma
gibão, domingueiro,
de ilhoses de prata,
de arminho e cordeiro.

A mim já me aperta,
e a ti te é laceiro;
tu brincas co'as outras
e eu danço em terreiro».

Já sou mulherzinha,
já trago sombreiro,
já tenho treze anos,
que os fiz por Janeiro.

Já não sou Anita,
sou a Ana do outeiro;
Madrinha, casai-me
com Pedro Gaiteiro.

Não quero o sargento,
que é muito guerreiro,
de barbas mui feras
e olhar sobranceiro.

O mineiro é velho,
não quero o mineiro:
Mais valem treze anos
que todo o dinheiro.

Tão-pouco me agrado
do pobre moleiro,
que vive na azenha
como um prisioneiro.

Marido pretendo
de humor galhofeiro,
que viva por festas,
que brilhe em terreiro.

Que em ele assomando
co'o tamborileiro,
logo se alvorote
o lugar inteiro.

Que todos acorram
por vê-lo primeiro,
e todas perguntem
se ainda é solteiro.

E eu sempre com ele,
romeira e romeiro,
vivendo de bodas,
bailando ao pandeiro.

Ai, vida de gostos!
Ai, céu verdadeiro!
Ai, páscoa florida,
que dura ano inteiro!

Da parte, madrinha,
de Deus vos requeiro:
Casai-me hoje mesmo
com Pedro Gaiteiro.


António Feliciano de Castilho - Escavações Poéticas; 1844

Friday, June 02, 2006

Naturalista

Nós, os naturalistas(*), consideramos que é preferível, de longe, a honra da invenção do que a honra da citação.

(*) Partidários do natural.

Montaigne - Pequeno vade-mécum - Antígona