Wednesday, May 30, 2007

Monangamba

Naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações;

Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho - cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.

O café vai ser torrado,
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado.

Perguntem às aves que cantam
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo?
Quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?

Quem capina e em troca recebe desdém,
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares,
"porrada se refilares"?

Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
Quem?

Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande, ter dinheiro?
Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
- "Monangambééé..."

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras,
deixem-me beber maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras:
- "Monangambééé..."

António Jacinto - poeta angolano

Friday, May 25, 2007

Estupidamente solidário

A inteligência e a insolidariedade andam de mãos dadas, na maior parte dos casos

Lembro-me bem que a seguir ao 25 de Abril, quando havia problemas, ninguém conhecia muito bem ninguém. A regra seguida era, as mais das vezes, "não me comprometam, que eu mal conheço a criatura".

A minha família esteve envolvida politicamente no 25 de Abril (antes e depois). Como muitas outras, teve problemas especialmente ao opor-se de forma activa à tentativa de desvio antidemocrático (e muitas vezes o foram). Mas o meu Pai tinha uma teoria interessante: devemos, nos momentos difíceis, procurar aliados com fortes princípios, mas não demasiadamente inteligentes. Quem é muito inteligente consegue sempre imaginar uma boa razão para não ser amigo e faltar à solidariedade pessoal sem, ilusoriamente, ferir os princípios. Essa justificação é não só uma desculpa para si próprio, mas também para os outros. Note-se que, também, não tem que ser uma atitude consciente, mas uma reacção instintiva de se pôr de fora: "Eu não me meto nos problemas dos outros", "realmente o que lhe têm vindo a fazer é chato, mas ele perdeu a razão na forma como reagiu"...

Com menos dramatismo, esta regra mantém-se verdadeira no nosso dia-a-dia. Podemos confiar em pessoas com fortes princípios e QI mediano, embora, também, não muito baixo; caso contrário, nem percebe o que se está a passar. Evidentemente que me orgulho de conhecer excepções a esta regra, mas conheço mais exemplos da sua veracidade, infelizmente.

É claro que na amizade há sempre uma dose de loucura que não se compadece com calculismos. Apoiar um tipo que está na mó de baixo é sincero; apoiar um ganhador também pode ser sincero, mas fica sempre a dúvida tanto em nós mesmos como nos outros.

A consciência desta regra, quase-sempre-verdadeira, levou-me a gostar de estar, por princípio, com a minoria. Para apoiar a maioria, em qualquer circunstância, penso sempre duas vezes se não estou a seguir o caminho fácil. Não faz de mim um homem feliz, mas um homem em paz e que não se envergonha de se ver ao espelho. É também por isso que sou da Académica, quando podia ser do Benfica ou do Porto, que ganham tudo. E porquê? Porque sim. Por que é que se é amigo de um amigo? Porque sim, é tudo.

Além disso, as opções morais no quotidiano raramente são decisões simples. O Judas é historicamente o estereótipo do traidor, embora, para mim, a ideia de ele se vender por 30 dinheiros seja factualmente difícil de admitir, por ser simples de mais. Será que Cristo escolheu um tipo tão mal formado que, tendo-O conhecido, O foi vender na primeira oportunidade? De qualquer forma, sujeitos que sejam iguais a este Judas não se encontram assim tão facilmente. O mundo real é muito mais subtil. E nem sempre estamos atentos.

Talvez até a história de Judas fosse algo diferente, mas nunca saberemos. Ainda há pouco foi publicado um romance curioso (mas não dramaticamente interessante, saliente-se) - O Evangelho segundo Judas - que nos dá uma interpretação alternativa. Alguém inteligente e que "trai", porque deseja ajudá-Lo, é transformado em bode expiatório, sendo os outros os verdadeiros traidores e, em especial, Pedro, que O negou três vezes.

Outra face desta moeda é o "empurrar de responsabilidades". Lembro-me, a propósito, de uma pequena história (que pode ficar como curiosidade para a História da guerra em África). Uma noite, talvez em 1972, quando me ia deitar, o meu Pai pediu-me para ficar com ele, porque havia algo de importante que iria acontecer lá para as duas da manhã. O caso era simples: tinha havido uma ofensiva em Angola e as nossas tropas estavam com problemas graves de munições, morteiros, granadas... A Força Aérea tinha-o informado, como chefe de gabinete do chefe do Estado-Maior, de que havia um 707 pronto a partir às duas da manhã, mas em sobrecarga ("as luzes vermelhas a piscar").

Com uma equipagem totalmente voluntária, o avião, dados os ventos, tinha que levantar voo sobre Lisboa. O perigo era evidente e queriam autorização superior. "Então perguntaste ao "chefe"?", inquiri. "Não, mandei eu próprio avançar; ele não poderia dizer outra coisa e, assim, se houver problema, a culpa é minha, ele pode dizer que não foi consultado." Como todos sabemos, correu bem e às duas da manhã vimos, da janela da nossa casa em Alvalade, a voar baixinho, o 707 sem problemas. Mas esta ideia de responsabilidade pessoal e institucional ficou-me marcada. Para o homem-económico dos modelos académicos, era o calculismo a funcionar contra o próprio, era um absurdo. Para os modelos da psicologia, é um comportamento de cidadania organizacional.

Penso que, sem darmos por isso, Deus ou o destino nos coloca todos os dias situações em que temos de escolher entre ser responsáveis, solidários e amigos ou sabiamente fugir às nossas responsabilidades. Sermos solidários é sê-lo por razões pouco inteligentes, ou seja, sem termos nada a ganhar, a não ser o respeito por nós próprios. É assim a vida e cada um escolhe a sua.

Luís Campos e Cunha, Público de 25.05.2007

Sunday, May 13, 2007

O que faz a famosa auto-estima xis ...

Os jornalistas devem confirmar a veracidade da informação que divulgam. É uma forma de evitar enganar os outros.
O texto "A coragem de Pessoa", publicado (caderno P2, pág. 4) no passado dia 13 de Abril, não passou despercebido.

Escreve Laurinda Alves:

"Deixo aqui o texto inspirador de Fernando Pessoa que foi lido em voz alta neste fim de tarde inesquecível.

Posso ter defeitos, viver ansioso
e ficar irritado algumas vezes mas
não esqueço de que minha vida é a
maior empresa do mundo, e posso
evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale
a pena viver apesar de todos os
desafios, incompreensões e períodos
de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos
problemas e se tornar um autor
da própria história. É atravessar
desertos fora de si, mas ser capaz de
encontrar um oásis no recôndito da
sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã
pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios
sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um "não".
É ter segurança para receber uma
crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir
um castelo..."

Alguns leitores questionam a autoria do "texto inspirador".
"(...) Pretendo ser discreto e não quereria ofender a senhora jornalista, que transborda de boas intenções e a quem desejo (como à maior parte das pessoas...) que seja muito feliz assim - ainda que, em semelhantes circunstâncias, me ocorra, com insistência, um brevíssimo conto de Voltaire sobre espécies de felicidade... Mas tenho bastante dificuldade em imaginar que um tal acervo de banalidades, mesmo muito bem intencionadas e inspiradoras, alguma vez se tenha encontrado com a complexa intelectualidade de Pessoa, nem mesmo em momento de ternurenta elaboração de uma carta para a Ophélinha. Além de que, literariamente, o textinho é muito pobrezinho... e isso, nem nas cartas para a Ophélinha! Acresce ainda que é basto notória a genealogia brasileira do escrito, com formulações sintácticas que, se hoje desgraçadamente contaminam a escrita deste lado do Atlântico, no tempo de Pessoa não eram sequer usadas na outra margem do dito, ao menos nos meios literários...
Como é que ninguém se apercebe disto?!
Temo que, ao publicar o textinho, sem que ninguém notasse a incongruência, o PÚBLICO lhe dê uma legitimidade inesperada (ainda se acredita no que vem nos jornais de referência), uma caução cultural reforçada, que sustente a convicção (sempre bem intencionada, com boa onda e muito karma) dos que continuam a não entender que a Net é um recurso muito importante, mas também muito perigoso, pois muito do que por ela viaja não tem qualquer validação...
Será que vou deparar com uma rectificação numa das próximas edições do PÚBLICO?
É claro que, se algum especialista em Fernando Pessoa me disser de que arca ou baú surgiu esta prosa, prometo que irei de burel e baraço em romagem ao Altar da Ignorância. E aceitarei, finalmente, como provado que o poeta uma ou outra vez abusaria do álcool e... não resistiria, mesmo assim, a escrever...", escreve Paulo Rato, um leitor de Queluz.
O texto suscitou mais interrogações.
"É citado um poema pretensamente de Fernando Pessoa ("A coragem de Pessoa", sem referência bibliográfica), cuja autenticidade me deixa dúvidas.
Uma frase como: "agradecer a Deus a cada manhã" não me parece que tenha saído da caneta do Mestre. Mas admito estar totalmente enganada, pelo que muito grata ficaria se me fornecessem a referência específica: qual o heterónimo, qual a data, qual a "arca" donde extraíram o poema", escreve Fernanda Jesuíno.
A solicitação da leitora é legítima.
"Já não é a primeira vez que me cruzo com esse texto (na altura foi-me enviado por e-mail), e já nessa altura tive a nítida impressão de que não é coisa que Pessoa fosse escrever. Não é estilo (ou estilos) dele. Não é o tema dele. Penso aliás que não é nada dele e o facto de o ver hoje preto no branco no PÚBLICO numa coluna de alguém que respeito e que a priori até confio saiba mais de Fernando Pessoa que eu, não me fez mudar de ideia.
No entanto, não encontro informação na Net que me suporte. Até porque esse texto está reproduzido incontáveis vezes e sempre colado ao nome de Fernando Pessoa. Não tenho mais a quem recorrer, a não ser que escreva para a Casa Fernando Pessoa, coisa que já estive mais longe de fazer. A única coisa que encontrei foi na Wikipédia, mas isso vale o que vale. Fica aqui transcrito: "Pedras no caminho? Eu guardo todas. Um dia vou construir um castelo."
Sentença tipicamente atribuída a Fernando Pessoa na Internet, ainda que nunca tenha sido escrita por ele, e sim por Nemo Nox, bloguista brasileiro.
(http://pt.wikiquote.org/wiki/Fernando_Pessoa)
Confio no seu juízo para avaliar a pertinência do meu comentário", escreve Daniel Marinha (do blogue www.quotidianidades.blogspot.com).
O comentário é pertinente.
"Mundo Pessoa" (blogue institucional da Casa Fernando Pessoa) apresentou três dias depois o "post" "Agarra que é apócrifo!": "Leonor Areal, no (blogue) Doc Log chama a atenção para coisas que é importante ler esclarecidas." (http://www.mundopessoa.blogspot.com/)
Eis o comentário de Leonor Areal: "(...) Laurinda Alves, em dia de azar, publica um texto supostamente de Fernando Pessoa, apócrifo evidentemente. Está à vista de qualquer um que conheça a obra de Pessoa que aquele poema piroso nunca podia ser dele, e ainda por cima com pronome reflexo colocado à moda brasileira: "Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história". Um idiota qualquer o escreveu, (...)" ("Fernando Peçonha" in http://doc-log.blogspot.com/2007/04/fernando-peonha.html)
É muito provável que a prosa corresponda a dois textos de autores diferentes. O bloguista brasileiro Nox poderá ser um deles: "No início de 2003, chateado com os obstáculos que encontrava e tentando ser um pouco otimista, escrevi aqui estas três frases: "Pedras no caminho? Eu guardo todas. Um dia vou construir um castelo." Não pensei mais nisso até que recentemente comecei a receber e-mails pedindo que eu confirmasse ser o autor do trechinho. Aparentemente, o trio de frases tomou vida própria e se espalhou pela Internet lusófona com variações na pontuação e na atribuição da autoria. (...) Depois alguém resolveu pegar um poema (possivelmente de Augusto Cury, autor de Dez Leis para Ser Feliz), colar o tal trechinho no fim e distribuir tudo como se fosse obra do Fernando Pessoa. Não demorou muito para que as minhas três frases começassem a pipocar pela rede atribuídas ao poeta português (afinal, é sempre mais bacana citar um famoso escritor luso que um quase desconhecido blogueiro brasileiro). Cheguei eu mesmo a duvidar da minha autoria. Poderia ter cometido um plágio inconsciente, recolhendo da memória alguma coisa lida no passado e achando que se tratava de material original? Revirei os poemas pessoanos em busca de pedras e castelos mas não consegui encontrar qualquer coisa remotamente parecida ao trecho em questão. Vasculhei os heterônimos e tampouco achei o guardador de pedras. (...) Outra coisa engraçada é que nem me sinto orgulhoso de ter escrito isso, parece-me hoje até um pouco piegas, como aqueles cartazes motivacionais com fotos bonitas e frases otimistas." (in www.nemonox.com/ppp/archives/2006_03.html#008119)
O psiquiatra Augusto Cury (autor de O Mestre do Amor, A Ditadura da Beleza ou O Futuro da Humanidade) não confirma a autoria da outra parte.
O provedor contactou, portanto, a Casa Fernando Pessoa.
"O poema em questão não é de Fernando Pessoa, coisa que poderia ser garantida à primeira leitura (pelo tema, pela escrita, pela ortografia). No Brasil, tanto na Web como em papel impresso, circulam vários "poemas apócrifos" assinados por Fernando Pessoa; muitas vezes, os seus autores pretendem garantir algum reconhecimento anónimo através da utilização do nome do poeta - são, geralmente, textos de má qualidade e que, infelizmente, se multiplicam todos os dias. Qualquer "leitor mediano" da obra de Pessoa ou dos seus heterónimos se dá conta da mistificação e da falsificação. Fernando Pessoa não diz semelhantes patetices", esclareceu Francisco José Viegas, escritor e director da Casa Fernando Pessoa.
Pedi, por outro lado, um esclarecimento a Laurinda Alves: "Agradeço sinceramente o contributo dos leitores e dos especialistas para desfazer um equívoco que não era só meu e, por isso, podia ser perpetuado. Aqui ficam os textos e as cartas, escritos em vários tons, a desfazer todas as dúvidas. Verifico, com surpresa, que ainda há pessoas que vivem convencidas de que nunca se enganam nem se deixam enganar."
Laurinda Alves reconhece o erro.
O provedor considera que os jornalistas devem confirmar a veracidade da informação que divulgam. É uma forma de evitar enganar os outros. O resto é conversa...

Rui Araújo Provedor do leitor do Público em 13.05.2007

Thursday, May 03, 2007

Parabéns Agualusa

O escritor angolano acaba de receber o Independent Foreign Fiction Prize, no valor de 15 mil euros, com O Vendedor de Passados

Enquanto José Eduardo Agualusa lê a abertura de O Vendedor de Passados, numa National Portrait Gallery esgotada e silenciosa, tento imaginar que sou uma das outras pessoas que ali está. Uma dos outros, aqueles que não entendem o que Agualusa diz; os outros, aqueles que não falam português. Tento ficar calada por dentro, não responder ao que ouço. Deixar a língua escorregar dos sentidos, tornar-se esquiva. Perco-a em momentos sucessivos, caem substantivos: janela; verbos: vi. Até que não sei o que quer dizer O Vendedor de Passados; O Vendedor de Passados são Ss cujas pontas se atam umas às outras, são Rs bicho-de-conta, pronunciados para dentro de si mesmos.
Eu acho uma maravilha em Londres andar de autocarro e de metro a escutar línguas em ponto de rebuçado musical; mas ontem fiquei a pensar que talvez seja ave rara. Aos ingleses, não os vejo a virar estrategicamente os ouvidos seduzidos pelo que não podem entender. Aos britânicos não os vemos a correr para as livrarias por um escritor estrangeiro. Agualusa está nos três por cento de autores traduzidos para o mercado britânico. Depois, está nos três por cento dos três por cento dos três por cento seleccionados para o prémio patrocinado pelo The Independent que distingue literatura em tradução. E indo às milésimas das percentagens, Agualusa ganhou.
Agualusa termina. Não sei o que leu, mas digo-vos: é lindíssimo. Na National Portrait Gallery desfaz-se o silêncio da incompreensão, ou como é mais bonito observar, do mistério.
Agualusa sai do pódio com a sua língua misteriosa, e dá lugar a Daniel Hahn, o tradutor, que terá uma audiência, então, que ri e acena cabeças de acordo. Este prémio também é para ele (50/50), o desembaraçador de mistérios.
Foi uma noite feliz. Fiquei feliz pelo Agualusa, mas tenho que confessar, fiquei muito mais feliz por mim própria. Foi como se também eu tivesse ganho um prémio.
Acho que estou em Londres há tempo demais - tempo, pelo menos, suficiente para ter começado a duvidar da minha própria língua. O meu prémio, ontem, foi fazer as pazes com a minha língua. Aproveitem a oportunidade todos os que andam zangados com a língua portuguesa (que os há, há, neste mundo-anglo-saxónico-cêntrico). Não consigo pensar em ninguém melhor para curar-nos de complexos. Agualusa é "o" escritor de língua portuguesa, o escritor migrante do português - de Angola para Portugal, de Portugal para o Brasil, do Brasil de volta a Angola, usando todas as combinações triangulares possíveis.
Agualusa, sempre gentil e charmoso, independentemente da língua de conversação, não perdeu a compostura. Eu perdi. Vim para casa com um sorriso exclusivo, atirando-o no metro aos outros, os que não falam a minha língua. Os que não lêem a minha língua, nem em tradução. Não sabem o que perdem.

Susana Moreira Marques, Público de 03.05.2007

Easy to Be Hard

How can people be so heartless
How can people be so cruel
Easy to be hard
Easy to be cold

How can people have no feelings
How can they ignore their friends
Easy to be proud
Easy to say no

And especially people
Who care about strangers
Who care about evil
And social injustice
Do you only
Care about the bleeding crowd?
How about a needing friend?
I need a friend

How can people be so heartless
You know I'm hung up on you
Easy to give in
Easy to help out

And especially people
Who care about strangers
Who say they care about social injustice
Do you only
Care about the bleeding crowd
How about a needing friend?
I need a friend

How can people have no feelings
How can they ignore their friends
Easy to be hard
Easy to be cold
Easy to be proud
Easy to say no

HAIR

Thursday, April 12, 2007

E você, está apaixonado pela pessoa errada?

A dúvida é tão antiga quanto as relações amorosas: será que me apaixonei pela pessoa certa? E se for a errada, como saberei? A psicóloga Ana Cristina Oliveira levanta a ponta do véu: "A pessoa errada é aquela que provoca o desejo de lhe agradar de tal maneira que nos força a ser diferentes do que somos". Não é de todo uma pessoa má. "Pode ser a errada para uma, mas a certa para outra", explica a psicóloga que na semana que passou deu uma conferência sobre o tema "Porque é que nos apaixonamos pelas pessoas erradas?".

Desengane-se, pois, quem pensou que os amores errados eram os de Romeu e Julieta ou de Callas e Onassis.

Se se revê no discurso "já não sei quem sou, nos últimos 15 anos não comprei nada a meu gosto e fui passar férias a sítios que detesto", então as campainhas deveriam soar. Acontece a quem tem baixa auto-estima, isto é, não se aceita muito bem como é. E precisa de projectar uma imagem daquilo que não é.

Ele é extrovertido, ela é o oposto, mas não quer que se descubra. É aqui que começa a sabotagem e até mesmo a mentira. Eis um exemplo: pouco tempo depois de começar o enamoramento, numa sexta-feira à noite, ele decide ceder ao apelo de sair com os amigos. Sem saber, ela prepara um jantar especial em casa, à luz das velas. E quando se apercebe que vai passar o serão sozinha prefere não deixar transparecer a desilusão. Imagine-se o diálogo ao telemóvel: "Hoje vou sair com o meu grupo de amigos". Do outro lado da linha, silêncio. "O que é que tens? Nada". A frase, diz Ana Cristina Oliveira, bem poderia ser o título daquela conferência. Um dos elementos do casal sente-se compelido a mentir ou fica em silêncio quando sente o controlo absoluto do outro.

"Aqueles dois não podem sobreviver", sustenta Ana Cristina Oliveira. E se a escolha pela pessoa errada for sistemática? "Há uma patologia do padrão relacional", isto é, pessoas com baixa auto-estima apaixonam-se por seres semelhantes. Como ambos projectam uma imagem daquilo que não são "estão sempre a cobrar isso um ao outro porque nenhum aceita aquilo que é", explica a psicóloga.

Já o carácter complementar num casal parece funcionar: um é introvertido (mas socialmente apresenta-se como extrovertido) e o outro é extrovertido mas dá ares de tímido. Só que, segundo Ana Cristina Oliveira, esta relação saudável é muito mais dinâmica e dá muito mais trabalho: "Têm que investir continuamente e esforçarem-se por serem verdadeiros e autênticos".

A preguiça é, pois, um barómetro de uma relação saudável. Não é bom sinal que haja "um a servir e outro a trabalhar", "uma vítima e um carrasco". As relações erradas são também muito intensas e muito fechadas ao exterior. Parece assim claro o diagnóstico de uma relação saudável: "uma relação que parece simples, que não dá trabalho nenhum, é errada".

A pergunta "Porque é que nos apaixonamos pelas pessoas erradas?" aguçou a curiosidade dos media e atraiu 160 pessoas, a maioria mulheres, que encheram numa sexta-feira à noite a sala do Teatro A Barraca, em Lisboa. Muito mais gente disposta a pagar sete euros e meio do que para a palestra anterior sobre o "Sexo e a Comida", também promovida pela Associação Lavoisier para angariar fundos.

Será que as pessoas estão assim tão infelizes com a sua relação e vieram tentar perceber porquê? "Penso que não. Há uma ansiedade de compreensão sobre como é que são os mecanismos de comportamento de cada um", justifica a psicóloga e também presidente da associação. Só assim, diz, se explica a venda de livros como "Os homens são de Marte, as mulheres são de Vénus".

Por outro lado, as pessoas adoram saber uma coisa negativa sobre si próprias porque ficam com a sensação de que são melhores. "É como ver os acidentes de carro: as pessoas passam devagarinho para se sentirem aliviadas de não serem elas próprias". Por isso também é comum preencher os testes das revistas sobre personalidade ou relações amorosas.

Ao longo de quase três horas, a oradora tentou descodificar as relações "que continuam a ser um grande mistério". E, num tom descontraído que divertiu o público, desceu às raízes do "apaixonamento".

Os jogos dos afectos começam em bebé. A criação de vínculos com o pai, com a mãe e, mais tarde, a rivalidade desta com a educadora. Com a adolescência, chegam os surtos do "apaixonamento". E com a maior frequência de sempre. Depois, perdem-se com a idade.

Por volta dos 17 anos, o apaixonado é a antítese da família onde cresceu. É uma atitude contra os pais. É a altura em que o rico se apaixona pelo pobre ou vice-versa; o urbano-depressivo pela transmontana típica. No primeiro almoço de domingo com a família, os pais ficam em estado de choque. Mas se não mostrarem muita hostilidade, provavelmente, o filho parte para outra.

No segundo "apaixonamento", aparece o inverso, ou seja, o candidato muito parecido com os pais. Tão próximo ao ponto de arrumar a panela de pressão no mesmo lugar que a mãe. A família fica encantada, mas a pessoa é errada. Não está no "timing" certo.

Só a terceira seria a bem escolhida. A primeira semana de "apaixonamento" é uma espécie de estado gripal, há uma sintonia perfeita. Depois as diferenças começam a fazer sentir-se. Afinal, repete-se o padrão da pessoa errada. Como é se interrompe este ciclo? Acontece uma catástrofe. A pessoa recorre a uma terapeuta ou tem a sorte de lhe aparecer a pessoa certa, explica Ana Cristina Oliveira. Nesse caso, tem de haver um território comum e respeitar o território do outro. "Não é um casal em que os dois vão sempre ao supermercado, é um casal que discute - e acham que é sinal que a relação está má", esclarece.

Falar de "apaixonamento" numa sociedade bombardeada pelo sexo parece quase desfasado. Como diz Ana Cristina Oliveira, "o "apaixonamento" é a cereja em cima do bolo das relações". E apesar de ser "um estado de angústia insuportável" parece ser muito desejado. "É como a lua-de-mel: é muito desejada, mas quando chegamos lá parece que tudo corre mal. Nunca é tão boa a não ser nas fotografias".


Texto de Sofia Rodrigues, Páginas Xis, Pública, Público 8 de Abril de 2007

Friday, April 06, 2007

As boas e os maus

Tal como as belas já não são vistas como eram, já é tempo de mudar a má fama dos mestres

Jorge de Sena, depois de zurzir longamente o romance Domingo à Tarde de Fernando Namora, rematava assim: "E concluamos com uma nota comprovativa da total isenção com que foi escrito este artigo: eu nunca li nenhum romance de Namora, e muito menos este de que me ocupei. De onde deve concluir-se que a diferença fundamental entre a literatura autêntica e a literatura de consumo está em que, para falarmos desta última, não é necessário lê-la."

O mesmo digo do programa A Bela e o Mestre no ar na TVI. Nunca o vi nem faço tenções de ver mas, como se trata de um programa de consumo, até de grande consumo, para falar dele nem preciso vê-lo. Contaram-me o pior e imagino até que possa ser pior do que me contaram.

O título remete para A Bela e o Monstro, um conto ancestral reescrito no século XVIII por Madame de Beaumont e que deu um bem conhecido filme. Mas as belas do programa pouco têm que ver com a menina do filme. Esta era até bastante inteligente, lia livros e, no castelo do monstro, ficou excitadíssima com a enorme biblioteca. E é a sensibilidade ligada à inteligência que a levou a amar o monstro, fazendo com que ele deixasse de o ser. Era bem diferente das raparigas estupidamente bonitas por fora e completamente ocas por dentro que imagino - repito que não vi - fazem as delícias dos voyeurs televisivos.

Já muita gente se insurgiu contra a imagem estereotipada e retrógrada da mulher que o programa transmite. A Bela e o Mestre é um verdadeiro regresso ao passado. No final do século XIX, Ramalho Ortigão, o macho lusitano que se bateu com Antero de Quental em duelo antes de se juntar aos "vencidos da vida", escrevia: "Pobres mulheres! Elas são-nos bem inferiores (...) pela anatomia dos ossos e dos músculos e pela constituição do cérebro. Elas têm a cabeça mais pequena, como as raças inferiores (...) não sabem compor óperas e nunca chegam a entender a matemática." Ramalho falava sem ponta de ironia: a mulher era considerada por ele e pelos contemporâneos um ser inferior. Sabemos hoje que estava redondamente enganado, e os seus descendentes intelectuais, que ainda não passaram do século XIX, estão tão enganados como ele. Ou melhor: estão ainda mais enganados, pois durante o tempo que passou ficou demonstrada a desrazão ramalheana. Quanto à ópera, não sei o suficiente, mas posso assegurar que alguns dos nossos melhores matemáticos são mulheres. Algumas bastante belas, se é que isso interessa.

Um mestre aparece identificado com um monstro na versão portuguesa deste telelixo. Como muitos e muito bem já defenderam as mulheres da acusação de ignorância, mas ainda ninguém defendeu os mestres, não da acusação de fealdade, mas da de maldade que está implícita no título português (um monstro é não só feio como mau!), venho eu defendê-los. Apesar de não ter o grau de mestre, tenho o de doutor, e sinto-me no mesmo saco. As belas são as boas e nós somos os maus. Mas que mal fizemos nós? E por que motivo o mestre ou, por maioria de razão, o doutor aparece associado ao terror e ao mal?

Esta injusta associação tem, de facto, uma longa história, na qual se incluem o Doutor Fausto, um homem de ciência que fez um pacto com o demónio, e o Frankenstein, um estudante de ciências que criou um monstro no laboratório. A propósito, foi uma rapariga inglesa de 19 anos, Mary Shelley, que escreveu, pouco antes de Ramalho nascer, Frankenstein, um clássico universal, ao passo que o escritor português, goste-se ou não dele, nunca escreveu uma obra que atravessasse fronteiras.

Mas muito tempo passou desde o Doutor Fausto e o Frankenstein. E, assim como as belas já não são vistas como eram, já é tempo de mudar a má fama dos mestres!

Carlos Fiolhais, Público 30.03.2007

Wednesday, March 14, 2007

Lost in translation: Three literary mistakes in one


The book: The New Guide of the Conversation in Portuguese and English written by Pedro Carolino and José da Fonseca in 1855. Although, it's probably better known by its 1883 edition title, English As She Is Spoke.

Mistake #1: becomes side-splittingly clear the second you open the book. Let's just say the entire thing reads like a particularly bad cheating attempt by a junior high schooler using Babelfish. According to the text, some common phrases a Portuguese traveler might use in England include: "That are the dishes whose you must be and to abstain;" "These apricots and these peaches make me and to came water in the mouth;" and the always-familiar idiom, "The stone as roll heap up not foam." It's this sort of high-quality translating work that made the book the world's first ironic bestseller - even prompting Mark Twain to contribute a preface to a later edition.

Mistake #2: became the stuff of legend. For decades, most experts have believed that Carolino and da Fonseca agreed to write an English phrasebook, despite the fact that neither knew English. Nor did they have access to a Portuguese-English dictionary. Instead, they wrote English As She Is Spoke using first a Portuguese-French dictionary and then a French-English one.

Mistake #3: was only recently discovered. In 2002, a graduate student at UCLA unveiled a new theory that José da Fonseca had been unfairly maligned by history. Apparently a legit scholar, da Fonseca had published a number of respectable translations and language guides - including an 1836 Portuguese-French phrasebook that bears a striking resemblance to English As She Is Spoke. The difference? Da Fonseca's book actually makes sense. According to the new research, Pedro Carolino simply came along 19 years later, poorly translated da Fonseca's French into English, then slapped both their names on the finished product.


mental_floss, March-April 2007, mentalfloss.com

Sunday, February 11, 2007

Segunda oportunidade

Esta semana convidaram-me para falar aos alunos de uma escola secundária. O tema era a conquista de Lisboa aos mouros, em 1147, mas os jovens estudantes estavam mais interessados noutros assuntos: queriam histórias de reportagem de guerra.Havia turmas do 7º ano ao 12º e os professores tinham-nos industriado sobre as perguntas a fazer, que deveriam incidir nas matérias que estavam a ser leccionadas. Mas mal se aperceberam de que tinham à sua frente alguém que estivera no Iraque, no Afeganistão e noutras zonas de conflito, esqueçeram completamente o programa de História.
- Qual foi a situação mais perigosa em que já esteve? - perguntou um.
- Quando teve mais medo?
- Já esteve quase a morrer?
- Viu matar muita gente?
- Já teve de fugir?
- Havia sítios onde se esconder?
- Qual foi a coisa mais horrorosa que viu?
- Alguma vez pegou numa metralhadora? Qual é a sensação?
Era uma daquelas escolas situadas entre vários bairros considerados "problemáticos". Grande parte das turmas eram formadas por alunos com situações especiais, segundo um programa designado "Segunda Oportunidade". Os docentes explicaram-me que, na maior parte do tempo, a sua função é, mais do que ensinar os conteúdos das respectivas disciplinas, ensinar os jovens a comportar-se.
- Gosta da guerra? - perguntou de repente uma rapariga loura de uns 16 anos, num tom assumidamente desafiador.
Os professores apressaram-se a esclarecer que ela era russa e que tinha vivido situações de grande violência. Eu declarei que odiava todo o tipo de guerra e que até tinha sido objector de consciência, para não ter de cumprir o serviço militar. Mas a rapariga levantou-se, apontou-me um dedo e respondeu, quase aos gritos:
- Se não gostasse não ia para as guerras! - sentou-se e começou a pintar os lábios com baton.
Sentindo a provocação, expliquei o melhor que pude a diferença entre estar numa guerra por achar importante escrever sobre ela e estar numa guerra por puro prazer. Mas ela, ostensivamente, já não me ouvia. Pintava os lábios e falava com as amigas.
Um miúdo de uns 12 anos e cabelo em cima dos olhos levantou-se para me interromper:
- O Saddam e o Bin Laden gostam da guerra!
Eu ia aproveitar pedagogicamente a deixa para definir a guerra como uma actividade só apreciada por homens sem escrúpulos, mas o miúdo não me deu tempo. Acrescentou logo:
- É por isso que eu gosto deles! Eu também adoro a guerra. Pegar uma arma e desatar a disparar balásios. Bang! Bang! Bang!
Uma menina de origem indiana quis saber se eu alguma vez tinha sido acusado de plágio. Lá respondi que nunca ninguém me tinha acusado de plágio, mas o garoto fã de Bin Laden recusou-se a acreditar:
- Acho que você já foi acusado de plágio!
Um miúdo africano que os professores esclareceram ser oriundo de Cabinda pôs o dedo no ar para fazer uma pergunta sobre a guerra de Cabinda, mas desistiu.
- Não, não posso fazer esta pergunta! - disse ele, aflito.
- E o Sousa Tavares, fez plágio ou não? - insistiu o aprendiz de Saddam.
Não sei, mas acho que não, comecei eu.
- Fez plágio, sim senhor. Eu sei que fez! - respondeu o fedelho e abandonou a sala batendo com a porta.
"Ele faz isto para chamar a atenção", explicaram-me depois os professores, com uma expressão de inexplicável ternura. "Nem sequer é um miúdo violento".
A minha vénia humilde aos professores da Segunda Oportunidade.

Paulo Moura, jornalista - Público - 4 de Fevereiro de 2007

Sunday, January 21, 2007

Les vieux

Les vieux ne parlent plus ou alors seulement parfois du bout des yeux
Même riches ils sont pauvres, ils n'ont plus d'illusions et n'ont qu'un cœur pour deux
Chez eux ça sent le thym, le propre, la lavande et le verbe d'antan
Que l'on vive à Paris on vit tous en province quand on vit trop longtemps
Est-ce d'avoir trop ri que leur voix se lézarde quand ils parlent d'hier
Et d'avoir trop pleuré que des larmes encore leur perlent aux paupières
Et s'ils tremblent un peu est-ce de voir vieillir la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, qui dit : je vous attends

Les vieux ne rêvent plus, leurs livres s'ensommeillent, leurs pianos sont fermés
Le petit chat est mort, le muscat du dimanche ne les fait plus chanter
Les vieux ne bougent plus leurs gestes ont trop de rides leur monde est trop petit
Du lit à la fenêtre, puis du lit au fauteuil et puis du lit au lit
Et s'ils sortent encore bras dessus bras dessous tout habillés de raide
C'est pour suivre au soleil l'enterrement d'un plus vieux, l'enterrement d'une plus laide
Et le temps d'un sanglot, oublier toute une heure la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, et puis qui les attend

Les vieux ne meurent pas, ils s'endorment un jour et dorment trop longtemps
Ils se tiennent par la main, ils ont peur de se perdre et se perdent pourtant
Et l'autre reste là, le meilleur ou le pire, le doux ou le sévère
Cela n'importe pas, celui des deux qui reste se retrouve en enfer
Vous le verrez peut-être, vous la verrez parfois en pluie et en chagrin
Traverser le présent en s'excusant déjà de n'être pas plus loin
Et fuir devant vous une dernière fois la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, qui leur dit : je t'attends
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non et puis qui nous attend.


Jacques Brel, les vieux

Saturday, January 20, 2007

O referendo

Não gosto do referendo e sempre o achei perigoso e nocivo. Primeiro, porque diminuiu e desvaloriza a representação política. Segundo, porque inevitavelmente tende a deturpar o debate e a vontade do eleitorado. Nenhum problema complicado tem uma resposta de "sim" ou "não". E, como não tem, os dois lados de qualquer campanha, como, no caso, a campanha sobre o aborto, acabam por cair na "simplificação terrível" da demagogia. Basta abrir os jornais. José Pinto Ribeiro, por exemplo, disse isto: "Um ovo não tem os mesmos direitos de um frango." Fora o mau gosto, quem falou em frangos? Mas Pinto Ribeiro não foi o único. César das Neves, no seu estilo hiperbólico, avisou que "a vitória do "sim"" torna o aborto tão "normal" como comprar um "telemóvel". Uma ideia que não se distingue pela sua especial humanidade. Gentil Martins quer punir as mulheres que reincidirem em abortar. E até houve um bispo que resolveu comparar o aborto com o enforcamento de Saddam Hussein. Deus lhe perdoe.
Significativamente, os grandes militantes do "sim" e do "não" vêm quase todos da classe média. Sucede que, para a classe média, o aborto não é um problema. Conhecendo bem os meios de contracepção e a "pílula do dia seguinte", quase nenhuma mulher (ou casal) da classe média é apanhada (ou apanhado) na necessidade de escolher entre um filho e um aborto. E, se as coisas por negligência ou acidente chegarem ao pior, não recorrem com certeza ao "vão de escada". Não admira, por isso, que vejam no aborto primariamente uma questão moral, de justiça social ou dos direitos da mulher e não hesitem em entrar numa polémica de "intelectuais", abstracta e violenta e, ainda por cima, incompreensível para quem, de facto, aborta.
Mas, pior do que o resto, é que, a pretexto de permitir uma decisão directa do "povo", o referendo criou pouco a pouco um confronto azedo entre a Igreja e a esquerda. Ou, se quiserem, entre a esquerda (com o PS à frente) e os católicos. Não se percebe como, apesar da prudência do patriarca, a Igreja se deixou envolver numa causa puramente política, que não contribui para a reafirmação da sua doutrina (e pode, pelo contrário, mostrar o desinteresse do país por ela) e que, ganhe o "sim" ou ganhe o "não", nada, ou quase nada, mudará na prática. Como não se percebe que o PS, excepto por exorcismo, se meta numa querela que só serve para promover o Bloco. A Igreja julga que pode fechar a porta ao aborto e os políticos que se livraram de um grande sarilho. Erro deles. Com o "sim" ou o "não", o referendo é o princípio de uma longa guerra, não é o fim.

Vasco Pulido Valente, Público - 20 de Janeiro de 2007

Monday, January 15, 2007

Paixão

(...)
Já um pouco mais calma, Isabel esperou que eu continuasse e eu assim fiz, sabendo como as mulheres ficam contentes ao ouvir dissertar sobre o amor.
- Os moralistas tentam persuadir-nos de que os instinto sexual tem pouco a ver com o amor e tendem a falar dele como se fosse um epifenómeno.
- Que diabo vem a ser isso?
- Bem, há psicólogos que pensam que a consciência acompanha os processos mentais e é por eles determinada, mas sem ter ela própria uma influência directa sobre eles. É mais ou menos como o reflexo de uma árvore sobre a água, não poderia existir sem a árvore, mas em nada a afecta. Para mim, tudo isto não passa de um monte de palavreado para dizer que pode existir amor sem paixão. Quando as pessoas dizem que o amor pode perdurar depois de a paixão morrer, estão a falar de outra coisa, de afecto, afabilidade, comunhão de gostos e interesses, e hábito. Especialmente hábito. Duas pessoas podem continuar a ter relações sexuais por hábito exactamente pela mesma razão que sentem fome à hora a que costumam comer. Claro que pode haver desejo sem amor. Mas o desejo não é paixão. O desejo é a consequência natural do instinto sexual e não é mais importante que qualquer outra função do animal humano. É por isso que é uma patetice as mulheres fazerem um drama se os maridos têm uma aventura esporádica quando a ocasião e as circunstâncias são propícias.
- E isso só se aplica aos homens?
Sorri.
- Já que insiste, serei forçado a admitir que os direitos são iguais. A única ressalva possível é que, para o homem, uma ligação passageira desse género não tem qualquer valor sentimental, ao passo que para a mulher tem.
- Depende da mulher.
Mas eu não estava disposto a deixar-me interromper.
- A menos que o amor seja paixão, deixa de ser amor para ser outra coisa qualquer; e a paixão não aumenta com a sua satisfação, mas sim com as dificuldades. O que lhe parece que Keats queria dizer quando aconselhou o amante sobre a urna grega onde jazia a não se lamentar? «Para sempre amarás quem terá sempre encanto!» Porquê? Porque ela era inatingível e por mais que o amante a perseguisse como louco, ela continuaria a escapar-lhe, pois estavam ambos prisioneiros no mármore do que suspeito ter sido uma obra de arte sem valor. O seu amor por Larry e o dele por si era tão simples e natural como o amor de Paolo e Francesca ou Romeu e Julieta. Felizmente para si, não acabou mal. Você casou com um homem rico e o Larry correu mundo atrás do cântico das Sereias. A paixão nada teve a ver com isso.
- Com é que sabe?
- A paixão não mede consequências. Pascal disse que o coração tem razões que a razão desconhece. Se ele queria dizer o que eu penso, significa que, quando a paixão domina o coração, este inventa razões que parecem não só plausíveis, mas decisivas para provar que o amor justifica tudo, até a perdição. Convence-nos de que até a honra é bem sacrificada e a vergonha um preço módico a pagar. A paixão é destrutiva. Destruiu Marco António e Cleópatra, Tristão e Isolda, Parnell e Kitty O'Shea. E, se não destrói, mata. Pode mesmo acontecer que uma pessoa tenha de enfrentar a desolação de saber que desperdiçou os melhores anos da sua vida, que se desonrou, sofreu a dor atroz do ciúme, engoliu mortificações e amarguras, esgotou todas as suas reservas de ternura, esbanjou toda a sua riqueza espiritual com uma pobre coitada, uma idiota, uma cavilha onde pendurou os sonhos e que não valia nem uma pastilha elástica.
Antes de terminar o meu discurso sabia muito bem que Isabel não estava a prestar atenção, estava, isso sim, ocupada com os seus próprios pensamentos. Porém, o comentário que fez a seguir surpreendeu-me.
- Acha que o Larry é virgem?
- Minha querida, ele tem trinta e dois anos.
- Tenho a certeza que é.
- Como pode ter a certeza?
- É o tipo de coisa que uma mulher sabe instintivamente.
- Conheci um jovem que fez uma carreira muito próspera durante anos a convencer uma beldade atrás da outra de que nunca tinha tido uma mulher. Dizia que funcionava como magia.
- Não me interessa o que possa dizer. Continuo a acreditar na minha intuição.
(...)

William Somerset Maugham, O fio da navalha, Edições Asa, Trad. de Ana Maria Chaves

Friday, January 12, 2007

Livro único

É preciso muito cuidado com as pessoas que leram um livro. Que leram apenas um livro. Porque não é o mesmo que ouvir um disco ou ver um filme, com o devido respeito. Um livro é incomparavelmente mais rico e complexo. É avassalador. Quem está habituado já não nota. Mas um pobre indefeso que é atacado de repente por um livro pode não lhe sobreviver. "Foi um livro que mudou a minha vida", ouve-se muitas vezes dizer. E eu acredito. O potencial está lá, para o melhor ou para o pior. Geralmente para o pior.
Conheço um tipo que leu uma vez um livro sobre as lendas dos índios da Amazónia. Ficou fascinado. O protagonista era um tal Nomombziá. Pois mal teve o primeiro filho, o inopinado fanático de literatura decidiu baptizá-lo como Nomombziá. A mulher não queria mas, por amor, cedeu. Já o funcionário do Registo Civil se mostrou mais intransigente: a lei não permitia tal nome próprio. Furioso, o pai da criança descompôs toda a repartição. Insultou o país e o Estado, representante de interesses mesquinhos e rasteiros, incapaz de compreender realidades mais elevadas, gritou ele, consciente de ter encontrado a causa da sua vida.
Registou provisoriamente a criança como Noémio José, e lançou-se numa batalha jurídica que dura até hoje.
A intensidade em que um livro nos mergulha é desmesuradamente diferente de qualquer outra experiência que tenhamos tido e os efeitos são imprevisíveis. Um livro suga-nos para dentro dele e depois explode dentro da nossa cabeça. Para um cérebro impreparado, é fatal. É como um gás que preenche num ápice todo o espaço vazio. O vazio da caixa craniana.
Há homens capazes de trair, de mentir, de renunciar a tudo, por um livro. Homens capazes de matar, só porque, um dia, leram um livro.
Alguns viveram anos e anos de resistência heróica. Felizes, sem ler uma linha. Mas não os deixavam em paz.
Quando, em público, alguém lhes perguntava: "Então, o que gosta de ler?" Respondiam invariavelmente: "Não leio tanto como devia..." Já a perceber-se a culpa que lhes roía a consciência e a auto-estima.
Até que um dia, num momento em que todas as condições estavam reunidas, sucumbiram. Num momento privilegiado, que nunca mais se repetiria, talvez um momento especialmente difícil, ou de busca de sentido para a existência, ou simplesmente de insuportável tédio, entregaram-se a um esforço sobre-humano de concentração, de vontade, de coragem, de abnegação. Entregaram-se ao grande empreendimento das suas vidas: leram um livro.
No fim, é como se tivessem levado uma sova. Ficam extenuados, com um olhar um pouco excêntrico. Juram para nunca mais. Tiveram a sua conta.
Lá voltam à vida, mas nada será como dantes. O livro deu cabo deles. Fazem lembrar aqueles jovens dos anos 70 que uma vez tomaram um ácido e nunca mais regressaram à normalidade. Só que estes regressam. Ou pensam que regressam.
Muitas vezes, estas pessoas acham que, já que só lêem um livro, devem ler um bom livro - a Bíblia, o Corão, o Manifesto Comunista. Erro crasso. É o pior que poderiam fazer. Se só lêem um, que seja uma coisa fraca. Mas o ideal mesmo, se só tencionam ler um, é não lerem nenhum.

Paulo Moura, Público de 7 de Janeiro de 2007

Thursday, January 04, 2007

O Ministério pimba da Educação

A propósito do livro Desastre no Ensino da Matemática: Recuperar o Tempo Perdido, organizado por Nuno Crato, Edições Gradiva, 2006.

Os Encontros de Caparide foram uma louvável iniciativa do Ministério da Educação, que pretendia ouvir as sociedades científicas sobre o ensino de algumas disciplinas fundamentais (Português, Matemática, Filosofia) cujas deficiências a nível de currículos são gritantes. Foram tempos áureos, em que um ministro da Educação, David Justino, se preocupava com questões relacionadas com o ensino e não apenas com questões laborais e meramente organizacionais. O cerne da excelência do ensino é a solidez científica dos currículos e a formação científica dos professores, mas as discussões públicas nacionais sobre educação nunca abordam estes aspectos centrais. Até parece que tudo o resto é que é a finalidade do ensino, quando na verdade são apenas meios.

Dos Encontros de Caparide resultaram dois livros. O primeiro, dedicado à Filosofia (Para a Renovação do Ensino da Filosofia, Plátano), foi publicado no início deste ano. E este volume, dedicado à Matemática, surgiu agora. No primeiro caso, trata-se de discutir uma proposta concreta que visa melhorar a qualidade científica e didáctica dos programas de Filosofia do ensino secundário. No segundo, trata-se de discutir questões pedagógicas gerais que afectam não apenas a disciplina de Matemática, mas todas as outras.

As desastrosas doutrinas pedagógicas que imperam em Portugal, algo pós-modernaças e "construtivistas", são elitistas - apesar de fingirem o contrário - e têm por denominador comum um ódio visceral às Ciências, à Matemática, à História, à Gramática, à Literatura, à Filosofia; enfim, a tudo o que se pareça com verdadeiros conteúdos escolares. Em vez de conteúdos, fala-se de competências - como se pudesse haver competências sem conteúdos. E em vez de se distinguir cuidadosamente o que são verdadeiros conteúdos escolares do resto, procura-se transformar a escola numa espécie de entretenimento com ademanes de educação para a cidadania - tudo, menos ensinar seriamente Matemática ou Geografia ou Filosofia ou História ou Música. A origem destas ideias remonta a Rousseau e à fantasia do bom selvagem, e o que se visa é acabar com as Ciências, as Artes e as Letras, pois tudo isso corrompe a criança, que é presumivelmente mais feliz a ver televisão e a jogar à bola. Claro que tudo isto é fantasioso porque para andar a entreter os meninos com conversa fiada não é preciso escola: as crianças divertem-se muito mais fora da escola, e no mundo de hoje não têm sequer tempo para se aborrecer.

Fantasioso é também querer certificar manuais escolares quando os programas das disciplinas, que foram certamente certificados pelo próprio ministério, são o locus classicus do erro científico e do disparate pedagógico. Em muitos casos, para que um manual seja cientificamente bom e pedagogicamente adequado, é obrigado a não respeitar o programa. Isto porque os programas se degradaram de tal maneira ao longo dos anos que, hoje em dia, ao ler um programa curricular de Filosofia ou Português ou outra disciplina, uma pessoa pergunta-se onde está a Filosofia ou o Português. Os pedagogos ministeriais impuseram ao país a original perspectiva de que se pode ensinar Português sem Português, Filosofia sem Filosofia e Matemática sem Matemática. Ao mesmo tempo que os estudantes são massacrados com inúmeras disciplinas vácuas sem qualquer centralidade escolar, não têm uma educação básica em Música, nem em Literatura ou Filosofia ou Geografia. Se um estudante de 15 anos quer saber alguma coisa sobre estas coisas, tem de o fazer fora da escola. Mas se quiser brincar aos índios, pode fazê-lo nas chamadas "actividades educativas", em substituição das aulas de Matemática. É esta a educação pimba que temos.

Mas não é esta a educação que a sociedade, no seu todo, quer. Os pais, com maior ou menor formação escolar, queixam-se de que a escola não ensina. Os miúdos cantam, com razão, que "na escola nada se cria, nada se transforma, tudo se perde". Os professores andam há anos a denunciar este estado de coisas. Mas os pedagogos ministeriais vão passando de governo para governo, conseguindo ora mudar a Gramática toda, prejudicando gravemente a possibilidade da excelência do ensino do Português (se antes poucos professores sabiam e ensinavam Gramática, agora ainda menos - ou será que a ideia é mesmo essa?), ora suspender documentos que introduzem conteúdos científicos sérios num programa que carece deles (como foi o caso da badalada suspensão das Orientações de Leccionação do Programa de Filosofia). A ideia de trabalhar pelo bem do país, pela excelência do ensino, em defesa do interesse público, é alheia a estes originais pedagogos.

Numa cultura como a portuguesa, na qual nunca se valorizou realmente o conhecimento - afinal, no tempo da outra senhora, o conhecimento era um ornamento social para exibir em conversas amenas enquanto se tomava chá -, compete à escola entusiasmar os jovens e a sociedade, dando-lhes uma percepção clara do valor intrínseco do conhecimento. Mas quando é o próprio ministério da educação que não acredita no valor intrínseco do conhecimento, dificultando cada vez mais o estudo aos muitos professores sérios que temos por esse país fora, afogando-os em trabalho burocrático e em horas contabilizadas nas escolas só para marcar ponto, que se pode esperar do nosso futuro? Como poderemos recuperar o tempo perdido, tanto no que respeita ao ensino da Matemática como no que respeita às outras disciplinas? Seja qual for a estratégia, o primeiro axioma tem de ser este: o conhecimento tem valor intrínseco, em si e por si, e é do maior interesse público protegê-lo e transmiti-lo, e ensinar a produzi-lo - e só a escola pode fazer isso, ainda que infelizmente o tenha de fazer contra o Ministério pimba da Educação.

Desidério Murcho, Professor de Filosofia - Público de 4 de Janeiro de 2007

Sunday, December 31, 2006

O elixir da eterna juventude

Estou velho!
dói-me o joelho
dói-me parte do antebraço
dói-me a parte interna
de uma perna
e parte amiga
da barriga
que fadiga
o que é que eu faço?
escolho o baço ou o almoço?
vira o osso
dói o pescoço
é do excesso
do ex-sexo
alvoroço
reboliço
perco o viço
já soluço
já sobrosso
esmiúço os meus sintomas
e já agora, do meu médico os diplomas
esmiúço a consciência
e já agora, apresento a penitência

Ah que estou arrependido
de ter feito e de ter tido
ai oração, ora seja
como a que ouvi na igreja

Mea culpa, mea culpa
minha máxima desculpa
é ter vindo p´ro presente
conservado em aguardente

Quero ser p´ra sempre jovem
as minhas células movem
uma campanha eficaz
água benta e água-raz

O elixir da eterna juventude
esse que quer que tudo mude
p´ra que tudo fique igual
estava marado
falsificado
é desleal!

Vou implorar aos apóstolos
mas é pior, que desgosto-os
com tanto pecado junto
não lhes pega nem o unto

Vou recorrer aos meus santos
esses, ao menos, são tantos
que há-de haver um que me acuda
senão ainda tenho o Buda

Maomé vai à montanha
o papa, ninguém o apanha
na Rússia, o rato rói a rolha
venha o diabo e escolha

O elixir da eterna juventude
esse que quer que tudo mude
p´ra que tudo fique igual
estava marado
falsificado
é desleal!

Misticismo agora à parte
envelhecer é uma arte
"arte-nova", "arte-final"
numa luta desigual

Só me vou pôr de joelhos
ante o mais velho dos velhos
e perguntar-lhes o segredo
de p´ra ele inda ser cedo

Quando o espelho me mira
já nem o chapéu me tira
deito-lhe a língua de fora
pisco o olho e vou-me embora

O elixir da eterna juventude
esse que quer que tudo mude
p´ra que tudo fique igual
estava marado
falsificado
é desleal!

Sérgio Godinho - O Elixir Da Eterna Juventude

Monday, December 11, 2006

"Psiquiatras, psicólogos e outros doentes"


Saber a que se dedicam os psiquiatras é tão difícil como saber a que se dedicam os psicólogos. Antes de ir ao consultório do meu cunhado Ernesto, eu tinha apenas uma noção muito vaga das funções da psiquiatria. Depois de ir à sua consulta e a mais outras dez ou doze consultas de psiquiatras e psicólogos já nem sequer tenho essa vaga noção. Cheguei à conclusão de que ninguém sabe com muita certeza o que é a psiquiatria ou a psicologia, nem aquilo que as diferencia, e que a principal ocupação de psiquiatras e psicólogos é tratar de averiguar quem são eles e a que se dedicam. É como se o meu pai e eu, em vez de nos preocuparmos em vender elevadores e em melhorar os nossos produtos e serviços, dedicássemos metade do tempo a dissertar sobre a nossa função na sociedade e sobre a história dos elevadores no Ocidente. Bem, na realidade isso é o que faz o meu pai.

Eu nunca perguntei a nenhum psiquiatra ou psicólogo - Deus me livre de semelhante atrevimento - em que consistia o seu trabalho, evidentemente. Mas são eles que sistematicamente se empenham em explicar-me qual é a sua função, quais as sua obrigações, quais os seus desafios na construção de um homem melhor no século XXI. É incrível. Entramos no consultório e, antes de nos perguntarem como estamos ou como nos corre a vida, já nos estão a dizer coisas como: «Um psicólogo não é ninguém importante, é apenas esse amigo com quem nos atrevemos a falar.» Mas quando já estamos há algum tempo com eles, também nos podem dizer coisas como: «Olhe, a minha função como psicólogo não é a de dizer-lhe tudo o que quer ouvir»; ou: «Você engana-se se pensa que eu só estou aqui para lhe passar as receitas.»

Eu creio que no fundo estas pessoas têm um problema de identidade e que todas elas necessitariam de um tratamento psicológico, se eventualmente conseguissem pôr-se de acordo sobre o que isso significa. Pela minha parte, desisti há muito tempo de obter uma ideia clara sobre a Ordem e preferi agarrar-me à ideia que já tinha do psiquiatra como a pessoa que cura as doenças mentais, mesmo que eles não parem de me dizer o contrário, ou o contrário do contrário.

Rodrigo Muñoz Avia, Ambar, 2006 (início do capítulo 3)

Friday, November 24, 2006

António Gedeão, cem anos

Álvaro Gois,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Catanhede,
pedreiros de profissão,
de sombrias cataduras
como bisontes lendários,
modelam ternas figuras
na lentidão dos calcários.

Ali, no esconso recanto,
só o túmulo, e mais nada,
suspenso no roxo pranto
de uma fresta geminada.
Mas no silêncio da nave,
como um cinzel que batuca,
soa sempre um truca…truca…
lento, pausado, suave,
truca, truca, truca, truca,
sob a abóbada romântica,
como um cinzel que batuca
numa insistência satânica:
truca, truca, truca, truca,
truca, truca, truca, truca.

Álvaro Gois,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Cantanhede,
ambos vivos ali estão,
truca, truca, truca, truca,
vestidos de sunobeco
e acocorados no chão,
truca, truca, truca, truca.

No friso, largo de um palmo,
que dá volta a toda a arca,
um Cristo, de gesto calmo,
assiste ao chegar da barca.
Homens de vária feição,
barrigudos e contentes,
mostram, no riso dos dentes
o gozo da salvação.
Anjinhos de longas vestes,
e cabelo aos caracóis,
tocam pífaros celestes,
entre cometas e sóis.
Mulheres e homens, sem paz,
esgazeados de remorsos,
desistem de fazer esforços,
entregam-se a Satanás.

Fixando a pedra, mirando-a,
quanto mais o olhar se educa,
mais se estende o truca…truca…
que enche a nave, transbordando-a,
truca, truca, truca, truca
truca, truca, truca, truca.

No desmedido caixão,
grande sonhor ali jaz.
Pupilo de Satanás?
Alma pura, de eleição?
Dom Afonso ou Dom João?
Para o caso tanto faz.


António Gedeão, Poema de pedra lioz, 1958

Thursday, November 09, 2006

A diferença entre um quiosque e a blogosfera

José Pacheco Pereira

Se eu olhar para um quiosque de jornais como muita gente olha para os blogues, o que eu vejo é isto: Maria, O Jornal do Crime, A Mãe Ideal, Novenas Milagrosas, Lux, VIP, Nova Gente, Maxman, o Borda de Água, PÚBLICO, Flash!, Única, 24 Horas, Nova Cidadania, TV Guia, TV Mais, Ana, Teleculinária, MM, Saúde, Record, Atlântico, A Bola, Autosport, Correio da Manhã, O Diabo, uns títulos em ucraniano, o Guia Astrológico, Os Meus Livros, Cosmopolitan, Prevenir, Sporting, Blitz, Guia Astral, Mini-Recreio, Activa, GQ, Diário de Notícias, Selecções...
Se abrir as folhas ao acaso, como se consultar blogues ao acaso, coisas sinistras estão sempre a cair de dentro das folhas: notícias falsas, especulações, falsidades anónimas, plágios, voyeurismo, egos à prova de bala, ignorância, erros, invejas, ajustes de contas, presunção, arrogância, esquemas diversos, banha da cobra, cobras. Há gente que fala com Deus e gente que namora o Diabo, há quem coma a namorada, como o Dr. Lecter, há o professor Karamba, e há umas meninas para todos os gostos, há extraterrestres, boatos, insinuações, muita "informação" anónima, pornografia strictu sensu, pornografia intelectual, quartos à hora, hotéis à noite, etc., etc. Uma selvajaria, o Mundo Cão, o Faroeste, os baixos fundos, o jet set, um conde, o tatuador, a tatuada, a esposa, o marido, a amante, o escroque, o bondoso, o franciscano e o tolo...
Ah! Diz-me uma voz, mas estás a misturar tudo! Pois estou, é como fazem os que falam dos blogues misturando tudo, como Miguel Sousa Tavares e Eduardo Prado Coelho fizeram recentemente para se defenderem (o que é legítimo) de acusações e falsificações anónimas. É verdade que os jornais e revistas têm responsáveis e não são como as cartas anónimas, ou os blogues que funcionam como cartas anónimas, mas quando os primeiros transcrevem os segundos ficam iguais. No caso do Miguel Sousa Tavares, o que falhou foi a imprensa tradicional, que aceitou citar fontes anónimas, sem um julgamento de mérito. A notícia não é que um blogue anónimo acuse Miguel Sousa Tavares de plágio, a notícia é que Miguel Sousa Tavares cometeu plágio, se o tivesse cometido, e aí o autor da notícia devia fazer o seu próprio julgamento e só publicar caso esse julgamento fosse que sim. Não sendo, o blogue é como uma carta anónima, incitável e inaceitável. Foi isso que falhou e hoje em dia falha cada vez mais, porque a comunicação social escrita precisa de pretextos para violar as regras de que se gaba como sendo distintivas e, na Internet, encontra-os com facilidade, entrando depois facilmente na selvajaria. Está lá no computador, para milhões verem, por isso está "publicado", logo posso citar e levar a sério, sem ter responsabilidade.
O mal não está nos blogues em si, está na nossa incapacidade para ler e escrever blogues, como para ler e escrever jornais com uma decência mínima. O problema é mais comum do que se pensa, embora seja verdade que as pessoas se sentem mais impotentes para se defenderem da Internet do que no mundo da comunicação social tradicional, mas o que é crime cá fora é crime lá dentro.
Mas a reacção aos blogues, selvagens, inúteis, desviadores da atenção, perdulários do nosso tempo, oculta-nos muita coisa de interessante que está a passar-se diante dos nossos olhos e que não percebemos porque os vemos tão misturados como o Jornal do Crime está com o PÚBLICO no quiosque de jornais, ou como se o PÚBLICO para falar de ciência citasse o Guia Astrológico como fonte. Os blogues são apenas uma das pontas do mundo novo em que já estamos, uma pequena ponta, mas tão reveladora que mesmo estes episódios lesivos de Miguel Sousa Tavares (acusado de plágio) e de Eduardo Prado Coelho (que tem um texto falso a circular na Rede) são dele sinal. Ora nunca ninguém disse que era o Admirável Mundo Novo, a não ser os utopistas que pensam que as tecnologias mudam o mundo sem o pano de fundo das sociedades onde elas existem.
Vamos admitir, o que não me custa nada, porque até acho que é verdade, que mais de 90 por cento do que está na blogosfera é lixo. Temos em seguida que convir que também 90 por cento do que está nos quiosques é lixo, a julgar pelo nosso quiosque. Não é por aí que se faz a diferença. Para isso é preciso olhar com um pouco mais de atenção quer para os 90 por cento de lixo, quer para os 10 por cento sobrantes, porque, tendo muita coisa em comum, têm também diferenças importantes. Para se perceber o que está a mudar no conjunto do sistema comunicacional temos que analisar o lixo e o luxo na Rede.
O lixo nos blogues, como antes (e agora) o lixo na Rede têm muito de comum com o lixo nos diários pessoais, nos jornais locais, nos boletins de paróquia, nas rádios locais, nos panfletos partidários, nas cartas anónimas, na pequena, grande e média comunicação social, nessa imensa voz entre sussurrada e gritada que nos acompanha sempre, na maioria dos casos como pura estática, lixo escrito, lixo dito, lixo visto. Mas tem diferenças interessantes como esta que não é meramente quantitativa: mais indivíduos falam na Rede do que alguma vez falaram em jornais, revistas, diários, cartas anónimas ou assinadas. O número espantoso dos milhões de blogues, com o seu crescimento exponencial, é um fenómeno radicalmente novo. Estes milhões de pessoas que escrevem na Rede, em nome próprio, com pseudónimos ou anonimamente, são uma manifestação da principal característica das sociedades pós-industriais, as que nasceram em espaços urbanos dominados por serviços, pela produção, distribuição e consumo de informação - são sociedades de massas, onde impera o que antigamente se chamava "psicologia de massas". São ainda poucos, mas são o primeiro destacamento, o destacamento loquaz, o que anuncia o que aí vem, os que ocupam o espaço público com as suas vozes no mesmo movimento com que um centro comercial se enche quando abre as portas às 10 da manhã, ou o prime time das novelas fica habitado das suas audiências, ou as praias do Algarve e os estádios de futebol se enchem.
Essas pessoas falam porque têm alguma coisa a dizer? Acrescentam alguma coisa ou são elas mesmo um sinal de cacofonia? Depende como se vê a questão: elas têm alguma coisa a dizer porque querem dizer alguma coisa - essencialmente que existem e que são elas que vão mandar, que são elas que já mandam. O que têm a dizer não é novo, é ruído, é pobre, é insignificante em termos culturais, estéticos, criadores, mas é a voz que fala cada vez mais alto, a voz que se ouve, a estática gerada pelas multidões e que exige ser ouvida nas sondagens, nas pseudo-sondagens dos telefonemas para dizer sim ou não, nas audiências da televisão, a que não quer esperar, não quer delegar, não quer aprender, não quer sofrer. Quer tudo e já, e só não o tem porque os "políticos" a enganam e desviam.
O número dos blogues significa que também, pouco a pouco, as massas das sociedades de massas chegam à Rede como nunca antes chegaram aos jornais ou chegam hoje à televisão. Trazem com elas aquilo que antes, nos primeiros parágrafos deste texto, chamei "selvajaria": não querem mediações, que são o poder do passado, o poder dos intelectuais, o poder dos antigos poderosos. Querem democracia "participativa", não querem democracia representativa, não querem saber de nada que possa significar privilégio dos sábios, ricos e poderosos. Não prezam a intimidade e a privacidade, porque no seu mundo não existem e não são valores, não prezam a propriedade porque a têm pouco, são anti-intelectuais, combatem todos os que parecem atentar ao seu igualitarismo funcional e punem-nos na Rede como gostariam de os punir cá fora: "é bem feito" é a expressão que mais se ouve por todo o lado. Miguel Sousa Tavares é "arrogante", o "povo" acusa-te de plágio; Eduardo Prado Coelho mandaste na intelectualidade durante muito tempo, leva lá com um texto falso para aprenderes que aqui somos todos iguais! Por bizarro que pareça, tudo isto foi escrito em linha, quer em caixas de comentários, as furnas da Internet, quer nos blogues anónimos e ignorados, os degraus superiores do Inferno.
É por isto que os blogues são interessantes, porque se move ali um monstro, que existe bem fora dos electrões. Esse monstro fala - nos blogues e nos jornais - e nós não o queremos ouvir porque ele nos coloca em causa, coloca em causa o lugar que ocupamos. Ele luta ali pelas suas regras próprias e não pelas que tomamos por adquiridas e, desse ponto de vista, convém conhecê-lo muito bem. É por isso que se aprende mesmo com os 90 por cento de lixo na blogosfera. E aprende-se ainda melhor se olharmos para o 10 por cento que não é lixo, porque para essa parte da Rede irá migrar uma parte mais dinâmica do espaço público, que conhece melhor o monstro e que já fez a prova do monstro.
Tratar os blogues como um quiosque dos jornais indiferenciado é deitar fora o menino com a água do banho. Vamos em seguida falar dos 10 por cento, número optimista, eu sei.

José Pacheco Pereira - Público de hoje


Tuesday, October 24, 2006

Défice democrático

Na semana passada, o secretário de Estado adjunto e da Educação, Jorge Pedreira, declarou a disponibilidade do Ministério da Educação para continuar a discutir o Estatuto da Carreira Docente com os sindicatos e mesmo para fazer algumas cedências nessa matéria que considerava aceitáveis, desde que os professores pusessem fim ao "clima de conflitualidade" e às suas "acções de luta".

Também na semana passada, o presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Rio, decidiu gerir o conflito com uma companhia de teatro que fez um sit-in no Rivoli, em defesa da manutenção da gestão pública daquele teatro, recusando-se a manter qualquer diálogo com os manifestantes, cortando-lhes a electricidade e a água, baixando a temperatura do teatro para os vencer pelo frio e fechando-lhes as portas de forma a impedir o seu contacto com o exterior. Os manifestantes acabariam por ser retirados de madrugada pela polícia (sem oferecer resistência) depois de mais de três dias de ocupação.

Ambos os episódios são exemplos de como os políticos portugueses continuam a conviver mal com o confronto democrático e a contestação e de como o seu sentimento de autoridade é tão frágil que receiam pô-lo em causa, caso enveredem por uma simples discussão com os seus críticos. Se no caso do Rivoli se podia invocar o (débil) argumento da legalidade (ainda que os sit-ins, manifestações pacíficas, tenham uma honrosa genealogia que vai de Gandhi ao movimento dos direitos cívicos nos EUA), no caso das manifestações e protestos dos professores nem esse existia - o que não impediu o secretário de Estado de tentar a sua jogada autocrática e censória.

Um amigo dizia-me há dias que em Portugal não é possível ter uma boa discussão - nem sequer entre amigos. As pessoas fogem do confronto, sentem-se mal perante as diferenças de opinião e levam as opiniões tão a peito que sentem as diferenças como afrontas que ferem os sentimentos mais do que excitam a razão e que podem danificar amizades sem com isso aprofundar a verdade. Por isso, disfarçam as diferenças até cair no falso consenso. A maior parte das discussões acaba à nascença, com o "ah, mas eu não acho nada disso" que devia ser o sinal de partida para uma viva troca de argumentos.

Que os portugueses comuns fujam da discussão como o diabo da cruz, enfim. O que não se compreende nem se aceita é que os políticos apenas saibam gerir o confronto político recorrendo à chantagem ou à polícia.

Numa democracia liberal, o confronto das ideias e a negociação entre interesses legítimos é central ao processo de decisão. E pagamos aos políticos (entre outras coisas) para que eles participem nesse confronto de ideias, discutam, ouçam e depois decidam e executem. Esse confronto deveria, aliás, ser bem-vindo pelos políticos, já que ele estimula a participação democrática e contribui para o esclarecimento. Que esse confronto de ideias se realize num pano de fundo de conflitualidade social (com manifestações, greves e sit-ins) é um dos preços da democracia.

Se um político tiver a pele tão fina que não suporte participar nessa discussão, deve abster-se de se apresentar ao povo como governante ou autarca. E se considera que esse confronto de ideias deve ser reprimido pela força, não tem lugar num sistema democrático. Os políticos deveriam, pelo contrário, agradecer estas oportunidades, mediáticas por natureza, de explicar a bondade das suas políticas aos seus concidadãos. A utilização da força e da chantagem sugerem, com razão ou sem ela, que não possuem argumentos para apresentar ou que receiam o escrutínio do debate público.

A lamentável declaração de Jorge Pedreira é inaceitável em democracia e deveria ter sido objecto de um pedido de desculpas e de uma demissão. E o gesto de Rui Rio é mais um sinal da autoritária insegurança a que o autarca do Porto já nos habituou.

José Vítor Malheiros, Público de 24 de Outubro de 2006

Saturday, October 07, 2006

Que farei quando tudo arde?*

Geneviève Ferone: Há uma economia que precisa de se "descarbonizar"
Por Géraldine Correia

Géraldine Correia: Como entrou neste mundo socialmente responsável?

Geneviève Ferone: Depois da minha formação, queria trabalhar nas Nações Unidas, em questões sociais. Foi o que fiz e repeti na OCDE, sobretudo em questões ligadas à energia e ambiente. Estive também no HCR (Alto Comissariado dos Refugiados). Depois parti para os Estados Unidos, para um gabinete de advogados em Los Angeles, e abriu-se em seguida um gabinete estratégico em São Francisco. Era paga para ser os olhos e os ouvidos de clientes franceses das finanças. Reparei então que os investimentos "verdes" ou ambientais eram praticados de forma séria pelos fundos de pensões da Califórnia. Havia sempre um investimento dos fundos em negócios sociais e ambientais, com um desejo de retorno do investimento, uma rentabilidade a longo prazo.

Foi aí que teve contacto com o rating social?

Tive encontros com todos os fundos de pensões americanos. Os conselhos de administração reflectem as minorias, sindicatos, etc. Por isso, verifiquei que havia um duplo empenho: no desenvolvimento social e na vontade de proteger as reformas, ou seja, um imperativo de rendibilidade. Organizei então viagens de estudo para clientes europeus e percebi que havia um mercado potencial. O rating social era uma informação com peso para clientes que investem a longo prazo.

E como é que este rating pesa nos investimentos?

Uma empresa que não capta as condições ambientais, que tem crianças a trabalhar nas suas fábricas, entre outras situações, tem um perfil de risco importante. É um risco para a sua imagem, mesmo que não pese financeiramente. O rating dá uma nota às empresas e traduz a adequação da gestão face às questões do desenvolvimento sustentável. Lancei este conceito em 1996 e passei a vender informações a uma clientela europeia de fundos de investimento. Por acaso calhou bem na época, por uma questão de moda, e até fui criticada por julgarem que seria um desafio passageiro. Mas um grande banco, por exemplo, prefere oferecer ao cliente um portfolio diversificado, com empresas bem cotadas no desenvolvimento sustentável. Mesmo que os bancos adoptem esta prática apenas por questões cosméticas ou de marketing, acaba por valer a pena.

Qual a diferença em relação a agências de rating semelhantes nos Estados Unidos?

Nos Estados Unidos são aplicados critérios morais de exclusão. Não se investe em empresas no sector da pornografia, dos cigarros, álcool ou armas. Em França, a ARESE começou a dar notas a todos os sectores, porque podem vender-se produtos tóxicos de forma responsável e produtos para bebé com práticas duvidosas, e o objectivo é a melhoria das práticas em todos os sectores. Mais tarde, na CoreRatings, que fundei a seguir, continuei a minha batalha, apesar de sarcasmos de organizações não governamentais [ONG] sobre os meus métodos cooperativos. Mas não podemos mudar nada se não convencermos as pessoas do interesse de mudarem. Um dia os critérios sociais e ambientais estarão ao mesmo nível dos financeiros pela vontade de gerir melhor os riscos, atrair empregados melhores, melhorar a sua imagem, ou mesmo evitar processos.

Como reagem as empresas submetidas a análise?

Esse é o segundo impacto que se pode ter no mercado: as empresas analisadas perceberam que havia questões que assumiam uma importância estratégica. No que respeita ao ambiente, a energia está a tornar-se um bem raro. O protocolo de Quioto abriu um mercado financeiro verde, com as quotas permitidas de CO2, etc. O desenvolvimento sustentável começou a ter um impacto visível nas contas das empresas, quer directamente, através das quotas para os sectores do cimento, siderúrgicas, petrolíferas e de serviços específicos, quer indirectamente, como no sector automóvel. O sector dos transportes vai depender de inovações a muito curto prazo para respeitar uma fiscalidade verde que cobra as emissões de CO2 por automóvel. Nos biocombustíveis estamos no limiar de grandes mutações. Na aeronáutica será ainda mais marcante, porque nos aviões não existe ainda alternativa ao petróleo, e o impacto poluente no ambiente é dramático - a problemática é dupla. A indústria química está também em jogo - por isso se procura desenvolver a todo o custo a biotecnologia, processos mais naturais que recorram menos a substâncias tóxicas.

Há uma nova economia a nascer?

Há uma economia que precisa de se "descarbonizar". Toda a logística vai mudar. O petróleo é raro e finito, logo não é viável continuar a pensar que os transportes de mercadoria se façam por camião. A construção civil precisa de se adaptar com prédios novos bem isolados - é sabido que 25 a 30 por cento dos gases do efeito de estufa vêm da falta de isolamento de habitações. Tudo isto está documentado e sabemos exactamente o que está a agravar as coisas e o que é preciso mudar. Há uma necessidade premente de optimizar a energia.

As coisas estão a mudar nesse sentido?

O petróleo ainda não é suficientemente caro para que haja uma ruptura dos comportamentos e dos modelos de rentabilidade. Mas em França, por exemplo, sabemos que uma casa bem isolada e preparada com vários tipos de energia custa em média mais sete por cento. O importante para o consumidor é que em cinco anos pode poupar até 70 por cento nas suas facturas de energia. O momento é crucial, porque por um lado é preciso mudar depressa, mas por outro o parque imobiliário renova-se apenas ao ritmo de um por cento por ano, o que significa que há um mercado também para a reabilitação de habitações já existentes. O mercado quer uma rendibilidade imediata, mas se esperar demasiado também será tarde demais.

Quais são os outros factores graves a nível social?

Temos de pensar a longo prazo em formação para mudar hábitos, equidade e diversidade cultural. As empresas têm de lá chegar porque os riscos são dramáticos a médio prazo. Uma mão-de-obra inexistente, por exemplo, devido ao envelhecimento das populações, ou clandestina, provoca desequilíbrios na sociedade. Há questões que deixam de fazer sentido, como a deslocalização. A China ou Índia, mais cedo ou mais tarde, terão uma mão-de-obra mais cara e deixa de ser sustentável deslocalizar para depois reenviar uma produção por barcos que funcionam com um combustível finito, raro e caro... Em poucos anos, o repatriamento de mercadorias tornará a questão do outsourcing obsoleta.

Quais as consequências disso?

A questão da energia toca cada vez mais a carteira e a vida das pessoas. Coloca problemas no âmbito da biodiversidade, com espécies em desaparecimento, rupturas na cadeia alimentar do planeta e pandemias como a da gripe das aves. Há claramente uma mutação do modelo de sociedade. A situação demográfica exige um reequilíbrio das forças económicas e, ao mesmo tempo, a sociedade exige transparência. Com o escândalo que levou a promulgar a lei de Sarbanes-Oxley, as empresas foram forçadas a uma postura mais clara e a concertações com ONG por vezes muito duras, que perturbam e influenciam o jogo económico.

Como se situam as economias emergentes neste âmbito?

O Ocidente envia lixo para África, por exemplo - como é que as pessoas desse continente vão reagir, a prazo, por serem depósitos de resíduos e desperdícios de países ricos? Como é que isso influencia o jogo económico mundial? Os chineses e indianos vão desejar também ter o seu apartamento com ar condicionado, dois carros, etc. O Ocidente dá-lhes poder de compra, mas depois vai dizer-lhes que não podem poluir, que há efeitos adversos no clima e na energia... Fala-se em voltar a uma economia do carvão - é um desastre para o ambiente. Em suma, a equação da demografia em queda e crescimento de populações de economias emergentes e da subida do nível de vida e vontade de consumo é explosiva. Se associarmos a esta a equação da energia e do clima, é fácil perceber por que estamos num ponto de viragem. Sabemos que se houver um crescimento de dois por cento ao ano, em poucos anos não existirá nem mais uma gota de petróleo ou gás, ou seja, nada que possa alimentar o motor económico.

Como aborda estes temas com as empresas que analisa?

Estes números criam ansiedade e percebi, em conferências, que as pessoas ficavam rancorosas ou mesmo agressivas comigo ou, no limite, entravam em estratégias de negação. Não tenho uma postura ideológica, mas há factos, como a inércia do CO2, que devem ser considerados - uma tonelada de CO2 fica dez anos na atmosfera, os gases do ar condicionado ficam 50 mil anos na atmosfera terrestre. O que já está vai perdurar muito, por isso todos os gestos são importantes para travar futuras poluições - separar o lixo, valorizar os recursos. O desenvolvimento sustentável depende tanto dos comportamentos como de tecnologias milagrosas. É provável que nos tenhamos de habituar a viver com mais calor no Verão, mais frio no Inverno. Mas vá dizer isso a economias emergentes...

Quem está a dar cartas nesta área?

É curioso como as petrolíferas detêm todas as patentes de energia solar - este mercado está cativo. O nuclear será a ponte durante uns tempos, com os riscos que conhecemos e populações a recusar centrais... Vivemos numa bolha de champanhe, com um conforto gigantesco a um preço mínimo. Ainda estamos numa atitude de negação. Nesta fase de transição, vão surgir serviços em alta, como a gestão de facturas energéticas. Uma empresa especializada virá a nossa casa, colocará energia solar para a água, caldeira, biomassa para o aquecimento central, etc. Haverá uma gestão com manutenção e pagaremos uma renda por esse serviço. Quando comprarmos um carro, haverá uma manutenção: o fabricante retomará o carro quando for um resíduo, para reciclá-lo. O futuro está numa desmaterialização da economia. Estamos mal habituados, porque queremos tudo novo. Na construção, por exemplo, as empresas usam asfalto novo. Porquê? Porque não recuperar asfalto usado e reaplicá-lo?

E porque acha que isso acontece?

Há uma grande margem de manobra na construção. Na Eiffage, por exemplo, o rating é favorável por estar próxima do terreno, ter empregados accionistas, etc. Está constantemente a criar protótipos para encontrar soluções na construção civil. Nasceu assim uma proposta de edifício de energia positiva em Lyon, a nova sede da empresa, com células fotovoltaicas nas fachadas para aquecimento, climatização fraca, menos estacionamento para que as pessoas venham de transportes, etc. O edifício vai produzir mais energia do que aquela que consome. Fazem também estradas asfaltadas a baixa temperatura, com materiais reciclados, e conseguiram já fazer funcionar um lar da terceira idade com energias renováveis. Estão numa problemática de arquitectura bioclimática, mas no fundo querem garantir a sua sobrevivência.

O que deve ser considerado para mudar?

O importante é prever questões que vão tornar-se rapidamente maduras, no âmbito de quatro grandes questões. Existem as questões latentes, como a nanotecnologia, cujos efeitos não conhecemos ainda muito bem, e as questões emergentes - são as de que falam os jornais, como a biodiversidade, ou direitos humanos. Depois há as questões maduras, como as energias renováveis, a eco-construção, a diversidade cultural nas empresas, etc., problemas ditos inteligentes. Finalmente temos as questões institucionais, com a legislação, as quotas de CO2, tratamento de resíduos, igualdade salarial entre homens e mulheres, higiene e segurança, etc. O truque está em perceber o que vai passar de latente a emergente ou maduro, e tentar agir correctamente para que não seja necessário passar para a questão institucional. As empresas reúnem-se a todo o custo em lobbies, como o WBCSD - World Business Council for Sustainable Development, para tentar mostrar à sociedade que estão atentas e reconhecem que há problemas... Os processos avançam muito rapidamente. As empresas reagem de forma defensiva, limitam-se a gerir riscos ou navegam à vista, gerindo apenas as questões institucionais. Outras escolhem a inovação e ruptura estratégica - são as start ups que preparam um novo mundo.

DiaD de 6 de Outubro de 2006, Público

* Título roubado de António Lobo Antunes por sugestão da Elipse