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Sunday, January 18, 2009

Os desatracados (Miguel Esteves Cardoso)

Se os portugueses vêem cada vez mais televisão, também há cada vez mais que não vêem. Nunca. Nem tão-pouco acompanham as coisas ditas de interesse público, sejam culturais, comerciais ou lá o que for. Desatracaram-se.

Os atracados andam a reboque da mesma caravana de agendas. Cada um tem uma opinião diferente. Mas todos vêem os mesmos programas e falam das mesmas pessoas e dos mesmos casos. Não é a discussão que é oprimente: é a agenda. A agenda é a lista das coisas escolhidas pelos empresários, políticos e editores para nós lermos; vermos; comprarmos; conhecermos; discutirmos.

É como o futebol. E basta não ligar ao futebol para ver o que se perde: nada. O pouco que importa acaba por chegar a toda a gente, já muito bem filtradinho, muito obrigado.

Graças à Internet, cada vez há mais desatracados. Lêem livros que mais ninguém está a ler; mergulham em mundos esquecidos; descobrem coisas tão novas que ainda nem coisas são; ouvem música fora de todas as modas; acompanham pessoas e problemas e pensamentos que se diria nada terem a ver com eles. Mas têm; acabam por ter. E isso é bom.

Desatracar não é rejeitar a realidade nem é ser hostil aos marcadores de agenda. É apenas pedir licença para não seguir o fio da realidade que está a ser distribuído a dado momento. É seguir outro fio, escolhido por cada um, sem grandes critérios ou seriedade até. E, quando se cruzam os dois, costuma ser interessantíssimo. E é giro.

Miguel Esteves Cardoso, Público de hoje

Sunday, December 07, 2008

Sinecura* (VPV)

Uma proposta do CDS, que teria suspendido a "avaliação" de professores, não foi anteontem aprovada na Assembleia, porque faltaram à sessão 28 deputados do PSD. Verdade que também faltaram 13 do PS, três do CDS, um do PC e um do PEV. Mas, com o grupo parlamentar do PSD presente e completo, o Governo perdia, até porque seis deputados socialistas (entre eles, Manuel Alegre) votaram pela oposição e um de absteve. A dra. Ferreira Leite ficou muito indignada com este normalíssimo episódio e declarou à Rádio Renascença que uma coisa daquelas não era admissível e não se "voltaria a repetir". Claro que, muito provavelmente, os deputados do PSD (e os do PS, do PC e do PEV) não apareceram porque preferiram aproveitar o fim-de-semana "longo", a pretexto de "trabalho político" (que, pelo regulamento, justifica a ausência) ou qualquer razão do mesmo género.

A história é velha. Desde o princípio do regime que os chefes partidários só se lembram da gente que arrumaram na Assembleia quando qualquer coisa corre mal. O resto do tempo tratam os pobres "representantes da nação" como um bando de menores, sem opinião, sem responsabilidade e sem carácter. Por muito que nos custe, a Assembleia é uma espécie de escola secundária, à velha moda, onde se marcam faltas e as criancinhas vão fazendo o que lhes mandam. Estão lá para se levantarem, ou sentarem, conforme a "direcção da bancada" lhes diz para se levantarem ou sentarem, e ocasionalmente para uma pequena sessão de propaganda. Não valem nada; e nunca se envergonharam com isso.

O que se compreende. A carreira de um deputado é um longo curso de obediência e humilhação. Precisam, primeiro, de apoio local ou do patrocínio de um chefe influente de Lisboa (que geralmente se adquire por intriga e por um quase obrigatório servilismo). São, a seguir, eleitos pelo partido, sem esforço próprio (ou pouco esforço próprio). E desembarcam em S. Bento para uma vida de total ociosidade. Para efeitos práticos não existem. A Assembleia é uma sinecura e eles vêem a Assembleia como a sinecura que é. Tanto quanto possível, não põem lá os pés, trabalham "para fora", tentam viajar (oficialmente, claro) e fogem nos feriados. Não se percebe a fúria da dra. Manuela com este arranjo. Ela já por lá andou e conhece a "casa". Que esperava ela, se não o que sucedeu?

* emprego ou cargo rendoso que exige pouco trabalho

Vasco Pulido Valente, Público de hoje

Thursday, December 27, 2007

"O maior drama da humanidade" - Rui Tavares - Público

Qual é o maior drama da humanidade? A guerra, a fome, as doenças, a miséria, a ignorância, o fanatismo, a violência, as catástrofes ambientais, a indiferença pelo sofrimento dos outros? Não, O maior drama da humanidade, segundo o cardeal-patriarca de Lisboa, é o ateísmo. O ateísmo é aquela opinião, hoje em dia trivial, de a que a existência de Deus é altamente improvável ou mesmo impossível. Mas não é bizarro que, nos dias de hoje, e com tanto por onde escolher, mesmo um cardeal designe tal ideia como "o maior drama da humanidade"? Aquele superlativo deixa implícito que qualquer outro drama, por grande que seja, é afinal menor do que o ateísmo, em toda e qualquer forma, desde todo o sempre. "Todas as formas de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade", disse José Policarpo na homilia de Natal.

O que explica que se consiga dizer isto? Uma característica curiosa da linguagem religiosa que verificaremos através de um exemplo prático. Em princípio, concordaremos todos que a guerra causa mais devastação do que o ateísmo. Mas se por "guerra" entendermos um momento ou circunstância em que os homens "negam ou se esquecem de Deus", logo a palavra "guerra" cabe dentro da definição de "ateísmo" do cardeal. Assim será possível dizer que o "ateísmo" é o maior drama da humanidade, de que a guerra passou simplesmente a ser uma manifestação. E o mais fascinante é que isto pode incluir até as guerras religiosas.

Nesta redefinição, o cardeal não quer dizer que ser ateu é pior do que matar alguém, mas que matar alguém é, por definição, uma forma de nos esquecermos de Deus e, por extensão, uma forma de ateísmo. Continua a ser absurdo, mas ao menos não é tão imoral.

Porquê, então, o ateísmo? Explicou o cardeal: "Os diversos ateísmos, nas mais variadas expressões, tiveram origem neste reduzir a esperança humana à dimensão da história", mas "nenhuma esperança deste mundo anula a esperança na vida eterna". Contra esta ideia de que a "esperança na vida eterna" é mais virtuosa do que a vida que temos, poderíamos lembrar que os bombistas suicidas matam pessoas às centenas com base numa "esperança na vida eterna". Mas não vale a pena. Isso seria apenas reeditar o debate inicial (o cardeal poderia dizer que os fundamentalistas "se afastaram de Deus" e o terrorismo religioso seria redefinido como uma espécie de ateísmo inconsciente).

Alguém lembrará que José Policarpo falava apenas para os fiéis, a quem estas palavras despertam outros sentidos. Pode ser. Mas esse é um dos problemas de falar para dentro e, em particular, da "viragem europeia" que Bento XVI impôs no Vaticano. Para poder combater a irreligiosidade na Europa, a prioridade passou a ser a doutrina, em detrimento dos problemas que realmente causam sofrimento à humanidade em todos os continentes. A estratégia é errada e, se os europeus virem a Igreja mais preocupada com jogos de linguagem do que com o sofrimento real, acabará por agravar ambos os problemas. Mas ao menos explica porque vê o cardeal como "maior drama da humanidade" aquilo que, afinal, é mais um drama da Igreja europeia.


Rui Tavares, Público de hoje

Sunday, October 28, 2007

Otário na favela (de Paulo Moura)

Caco Barcellos é um jornalista brasileiro que trabalha nas favelas. Já teve programas na televisão, escreveu vários livros. Em Rota 66, investigou os esquadrões da morte da polícia de São Paulo. Em Abusado, mergulha no mundo dos traficantes de droga que operam nas favelas do Rio de Janeiro. Ambos os livros são best-sellers e revelaram o lado mais negro da realidade brasileira. Ninguém, como Caco, tinha alguma vez imergido nos submundos das grandes cidades do Brasil. Nenhum jornalista, nenhum investigador ou mesmo polícia tinha alguma vez conseguido ganhar a confiança dos líderes do mundo do crime, das autoridades marginais dos bairros pobres.

Para espanto de todos, Caco Barcellos, nos últimos 20 anos, praticamente vive nas favelas. Aprendeu os seus códigos de comportamento, a sua linguagem. Teve de convencer os seus habitantes de que não é um "X9" (agente da polícia infiltrado), nem um "vacilão" (cobarde). Mostrou que não "amarela" (ter medo) nos íngremes becos de lama do morro e que não é movido por qualquer interesse desonesto - ou seja, é apenas um "otário" que mora lá em baixo no asfalto.

Para os habitantes da favela, um cidadão honesto é considerado um otário, o que faz algum sentido. Na sua perspectiva, os ricos não são honestos e os pobres que o forem são otários. Caco é um "otário" e não se importa. É, aliás, esse o papel que escolheu e que lhe permite fazer jornalismo independente e sério. Porque é difícil passar tempo na favela e não ser conivente com os crimes que são cometidos todos os dias. Caco explicou isso aos seus interlocutores: se souber que alguém vai ser assassinado, terá a obrigação de avisar a vítima. Se assistir a um roubo, uma violação ou um massacre, ver-se-á forçado a chamar a polícia, a denunciar os culpados. Como resolver este problema?

O repórter encontrou uma solução: não quer conhecer histórias do presente, só do passado. Desde o início, pede a todos que não lhe contem nada do que está a acontecer, do que estão a fazer. Na presunção de que as actividades das personagens que investiga serão pouco recomendáveis, prefere ignorá-las. Essa é a única forma de poder manter o convívio. Já as histórias do passado são bem-vindas. Por mais sanguinárias que se revelem, não há nada a fazer. Estão consumadas. Conhecê-las não faz do jornalista cúmplice.

A estratégia é simultaneamente simples e genial. Permite penetrar subtilmente na radical inocência dos actos humanos. Compreendê-los, sem a interferência do julgamento. O segredo é permanecer um passo atrás no tempo. Olhar tudo a uma certa distância, mesmo estando muito próximo, mesmo estando lá.

Nos primeiros anos, foi duro. Uma barreira de desconfiança impedia o acesso de Caco à realidade que queria conhecer e descrever. Mas depois tudo mudou. Os habitantes da favela perceberam que o trabalho do jornalista não os prejudicava. Antes lhes dava voz e dignidade. E passaram a ser eles a disputar a atenção de Caco, a querer contar as suas histórias, apresentar as suas queixas.

Agora, desde as vielas ensopadas de esgoto do morro da Dona Marta, as crianças costumam correr atrás dele, conta Caco. Meninos de 10 ou 11 anos gritam-lhe, com ar trocista: "Eh, otário! Quer conhecer as histórias do meu passado?"


Paulo Moura, Público de 28-10-2007

Tuesday, October 09, 2007

Analfabetos... mas diplomados (Santana Castilho)

As comemorações do 5 de Outubro foram marcadas pelo discurso de Cavaco Silva, que escolheu a educação para tema principal. Poderia analisar as palavras do Presidente da República cruzando o que agora disse com o que fez quando era primeiro-ministro. Ou pondo em confronto a crítica à política seguida para o sector, implícita no verbo cuidado de hoje, com o apoio explicitado em actos precipitados de ontem, que tanto serviram a mesma política. Prefiro aproveitar, interesseiramente, o efémero sobressalto que as palavras do Presidente provocaram na consciência do país para, explorando essa sensibilidade passageira, pôr em evidência alguns factos que me parecem relevantes, a saber:

1. Abundaram, nas análises que se seguiram, as habituais retóricas que transformaram o círculo num quadrado. Sócrates destacou-se. Viu no discurso um incentivo ao seu Governo, mesmo que Cavaco tenha considerado uma perda de tempo a desastrosa produção legislativa que o caracteriza e que António Barreto tão bem ridicularizou no último artigo aqui dado à estampa. Mesmo que Cavaco tenha remetido para o limbo do esquecimento a febre tecnológica de fachada, que transformou ministros em vendedores da TMN, e tenha preferido pôr a tónica nos recursos humanos da educação. Mesmo que o Presidente tenha apelado para o envolvimento das comunidades na escola, enquanto o Governo prossegue numa política centralizadora e recuperadora das mais retrógradas lógicas de hierarquia vertical. Mesmo que Cavaco tenha pedido respeito pelos professores, enquanto o Governo tudo tem feito em sentido contrário.

2. Maria de Lurdes Rodrigues e Mariano Gago primaram pela ausência, não ouvindo, de viva voz, o discurso que interessava às áreas que tutelam e foi conhecido com antecedência. Podem assessores debitar justificações evasivas, que não apagam o significado político do facto. Tanto mais quanto é patente, no caso da primeira, a aversão que tem a perguntas incómodas e a inabilidade visceral para resistir a palcos adversos.

3. O apelo do Presidente da República para que os cidadãos e as autarquias aumentem a participação na vida das escolas é apenas mais um, retórico e inconsequente. A realidade pode ser dura, mas não está dissimulada: a maioria não se preocupa com as escolas nem com o que lá se aprende, mas com o diploma. A maioria, tal como o Governo, não se incomoda particularmente com o facto de o sistema gerar analfabetos... desde que os diplome. Participação? A lei vigente prevê, há anos, o funcionamento dos Conselhos Municipais de Educação. Que resultados se conhecem? Quantos funcionam?

4. Se a Escola Pública, que a República democratizou, tivesse logrado formar os cidadãos que almejava, não seria possível termos hoje um desemprego de professores como nunca foi visto; uma precariedade da profissão docente nunca imaginada; um regime de avaliação dos profissionais do ensino injusto, retrógrado, grosseiramente impracticável, que trará o caos às escolas; um Ministério da Educação que não cumpre as leis que cria e é condenado continuadamente nos tribunais, sem consequências de natureza política. Se a Escola Pública tivesse logrado formar os cidadãos que devia, não teríamos um primeiro-ministro a ousar aconselhar os jornalistas a não confundirem os professores com os sindicatos, como se não fosse bem mais expressiva a relação entre estes que aquela que existe entre os filiados do partido político pelo qual foi eleito e os portugueses independentes de qualquer canga partidária! Professor do ensino superior

Santana Castilho, Público de hoje

Sunday, October 07, 2007

A corrupção do Estado (Vasco Pulido Valente)

A entrevista que João Cravinho deu na última quinta-feira é indispensável para perceber a corrupção. Cravinho diz duas coisas de uma importância crucial, em que esta coluna tem de resto insistido. Primeiro que o grosso da corrupção "se faz", com uma ou outra "entorse" imperceptível, "de acordo com a lei". Segundo, que por isso mesmo a polícia e os tribunais não podem ir longe e só se ocupam de casos menores. No fundo o Apito Dourado e operações do género são um espectáculo, que esconde os crimes de consequência. Com grande coragem, Cravinho explica qual é o problema: e o problema é o de que certos lobbies se apoderaram de "órgãos vitais de decisões" do Estado ou dos departamentos que as preparam. Ou, se quiserem, o de que o Estado se tornou o principal agente de corrupção.

Isto significa que o Estado serve, não o interesse do país, como compreendido por este ou aquele partido, mas sim o interesse do lobbies com mais poder ou influência. E, no entanto, nunca se fala disto, embora toda a gente o saiba ou suspeite, a começar pelo Presidente da República, porque os "negócios" conseguem inspirar um respeito e um temor que, por exemplo, o futebol não consegue e que manifestamente coíbem a imprensa e a televisão. O que se passa no interior de certos ministérios de que depende a orientação da economia nunca chega à rua. Como nunca chega à rua quem perdeu e ganhou com os "projectos", que o Estado autoriza ou financia. Ou quem é e donde vem o impecável pessoal que manda nisso tudo. Ainda anteontem o dr. Cavaco exigiu novas leis para assegurar o que ele chama a "transparência da vida pública". Infelizmente, novas leis não bastam.

Cravinho descreve o "choque" que sofreu com a complacência do PS perante a corrupção do Estado. Sofreria com certeza um "choque" igual, e talvez pior, no PSD. A verdade é que o "bloco central" se fundiu com o Estado. Não existe um Estado independente do "bloco central" e muito menos dos "negócios", que o apoiam e sustentam: da banca e da energia a quatro ou cindo escritórios de advogados. Cravinho, como Cavaco, não percebeu, ou preferiu omitir, que hoje não se trata de reformar uma parte inaceitável do regime, mas pura e simplesmente de mudar o regime. Se por acaso caísse do céu a "transparência" que o dr. Cavaco deseja, metade da primorosa elite do nosso país marchava para a cadeia como um fuso.


Vasco Pulido Valente, Público de hoje

Saturday, October 06, 2007

15 anos a eleger líderes (Eduardo Cintra Torres)

O incidente Santana Lopes/SICN e a eleição de Luís Filipe Menezes para presidente do PSD coincidiram com o 15º aniversário da TV privada. Três temas num só. Começando em Menezes: entre ele e Marques Mendes houve um desequilíbrio televisivo fatal para o segundo. Nos noticiários, cujo discurso é controlado pela selecção jornalística (e não só), Mendes aparecia regularmente, mas Menezes também, ao seguir a estratégia de Lopes: criar «TV opportunities» para tomar posições contrárias a Mendes ou para o criticar. Assim, com a colaboração televisiva, Menezes há muito que se inventou como alternativa a Mendes.

Fora dos noticiários, Mendes esteve em alguns programas de entrevista, de grande tensão e muito controlados pelos entrevistadores, não proporcionando empatia do espectador com os políticos. E Menezes? Estava desde 2004 no Frente-a-Frente da SICN, ambiente mais relaxado e possibilitando essa empatia. Mendes não tinha, e Menezes tinha, um canal de grande liberdade discursiva e de comunicação permanente com os militantes e espectadores. Em resumo: depois de Santana Lopes, Paulo Portas e José Sócrates, Menezes é o quarto líder partidário eleito por causa da televisão.

E o incidente Lopes-SICN? (Ponto prévio: a SICN cortou a entrevista com incompetência, pois para o evitar bastaria o recurso habitual da divisão do ecrã: manteria Lopes falando enquanto mostrava na outra metade a chegada de Mourinho, assim dando os dois eventos em simultâneo.) O caso revelou momentânea presença de espírito de Lopes. A revolta contra critérios editoriais da SICN foi o seu único acto assinalável na campanha do PSD e em nada se relacionou com ela.

O caso permite debater critérios editoriais, o directo e como interromper uma notícia para dar outra. Em teoria é questionável que a chegada dum treinador de futebol interrompa uma entrevista política. Mas não há teoria sem verificação no concreto: o treinador em causa é um dos melhores e mais mediáticos do mundo, regressando à «pátria» depois da mais espectacular saída de um clube de que há memória; existia a hipótese (remota) de ele dizer algo mais importante que Lopes. Este tem há décadas uma presença pertinaz nos ecrãs como comentador de futebol, comentador político (SIC e RTP) e concorrente dum concurso na SIC; inventou-se e reinventou-se para estar sempre na berra mediática, e os media deram-lhe tudo; a sua carreira política fez-se de aparecer na babugem do dia, de dicas erráticas, do diz que diz e não disse, do eu sou assim e eu e eu e eu. Faz o que for preciso para aparecer: se para aparecer for preciso desaparecer do estúdio da SICN, ele levanta-se e sai. De facto: desde Junho que Lopes não aparecia na lista dos 10 protagonistas das notícias televisivas e, por ter desaparecido da entrevista, entrou de rompante para 5º lugar, protagonizando 16 notícias em quatro dias do período de 24 a 30.09.

Invenção da TV, em boa parte da SIC e SICN, Lopes agiu como a criatura em revolta contra o criador. Mas revejam-se as imagens: depois de terminada a ligação ao aeroporto, não só se manteve em estúdio dois minutos (!) como agradeceu repetidamente, como que deixando a porta aberta a muitos e muitos convites futuros para lá voltar.

Mais notável é que tantos milhares, incluindo leitores do PÚBLICO, se congratulassem com o gesto. A asfixia futebolística nos noticiários não gera protestos iguais; não há protestos em massa como este contra 15 minutos de Madail ou Scolari abrindo três noticiários; dois dias depois do episódio Lopes, não se ouviram protestos contra a RTPN por emitir um programa de futebol repetido enquanto a SICN dava em directo a vitória e o discurso de Menezes; também não há protestos quando, nas noites eleitorais, se interrompe um político para dar o ecrã a outro.

Porquê a comoção neste caso? Porque se deu mais importância ao futebol do que à política; porque Lopes fez o mesmo que a SICN, esta usou o directo para o interromper, ele usou o directo para a interromper; porque Lopes pareceu recusar o palco mediático; porque muita gente já não aceita a arrogância da TV em geral de dona de palco, microfone e imagem, ela, sim, a verdadeira treinadora ou seleccionadora de quem é «alguém» no país, incluindo os chefes partidários como o próprio Lopes, Sócrates, Portas ou Menezes.

O caso simbolizou a percepção da TV como arrogante mas em decadência: anos atrás, Lopes não se teria levantado por precisar da TV como fulcro da ascensão política; hoje, com a internet e os muitos canais de TV alternativos, já pode ser «corajoso» pois o seu gesto chega a toda a gente por outros meios: em quatro dias, no you-tube as imagens foram vistas mais de 336.000 vezes.

Acaba um ciclo, ao fim de 15 anos? Hora de balanço: a mudança política e social do país por causa da TV em 15 anos foi bem maior e mais significativa do que a mudança dos conteúdos televisivos. A programação actual, estava, em boa parte, pressuposta nas grelhas da RTP, quase 100 por cento comerciais quando começaram SIC e TVI: já lá estavam as novelas, sitcoms, futebol, concursos, publicidade em intervalos e programas, converseta. Hoje, a RTP permanece a empresa de TV comercial de Estado em concorrência com as TVs comerciais privadas.

As alterações na programação deveram-se à concorrência. O português passou a dominar as emissões, mas o medo de inovar nos conceitos de programas generalizou os formatos estrangeiros em versão lusa; a comunicação tornou-se quase só feminina e, nos últimos anos, a sensibilidade gay entrou em força na TV generalista; grelhas, programas e até rubricas são ditados só pela audimetria; programas com menos audiência, «populares» ou «elitistas», acabam ou empurram-se para horários invisíveis. Tudo isso estava em potência na RTP de 1992; ela lá chegaria sem TV privada.

Ainda por causa da concorrência, atendeu-se mais às escolhas dos espectadores; criaram-se novas elites secundárias, como a dos parasitas do ecrã que vivem de e por aparecerem, mas a abertura de noticiários, concursos e talk-shows a novos protagonistas de fora das elites tradicionais foi bem menor do que aparenta, como prova Felisbela Lopes em A TV das Elites (Campo das Letras, 2007).

A mudança essencial trazida pela TV privada foi a da vida política: a acção política resulta do que a televisão mostra; a acção política faz-se para a televisão mostrar; a crescente dissolução dos partidos deve-se à quase inutilidade das estruturas quando a comunicação se não processa por elas mas pelos media de massas; a importância crescente do protagonista partidário a tal se deve, pois é ele que aparece; os cidadãos participam mais em acções cívicas fora dos partidos porque a TV as mostra e obtêm resultados (estrada, policiamento, fecho de escola, etc.).

A TV não agiu só na vida política mas no próprio sistema político: a abertura das autárquicas às listas independentes resulta da personalização da política e da caducidade das estruturas partidárias enquanto forma única de comunicação entre políticos profissionais, militantes e cidadãos; a eleição directa dos líderes é obra da televisão e faz-se na televisão. Sem a abertura da TV a novos canais nunca Sócrates, Lopes, Portas e Menezes teriam chegado tão facilmente às chefias dos partidos.


Eduardo Cintra Torres (Público de hoje)

Tuesday, October 02, 2007

Chorai, elites (Rui Tavares)

Em geral, as elites portuguesas não se distinguem por nada que tenham feito. Não têm o hábito de se elevar e, em consequência, resta-lhes empurrar o povo para baixo quando ele se chega muito perto. Vejamos, a título de exemplo, as célebres elites do PSD. Joaquim Ferreira do Amaral é elite do PSD. Antigo ministro das Obras Públicas, candidato a presidente da Câmara de Lisboa, candidato à Presidência da República. Foi ele que negociou com a Lusoponte um ruinoso acordo para as travessias do Tejo que teve de ser defendido, nos anos finais do cavaquismo, à força de cargas policiais. Hoje Ferreira do Amaral é o presidente da Lusoponte.
Rui Rio é elite do PSD. O corajoso Rui Rio, o implacável Rui Rio, desejava chegar a líder do PSD. Sabia que teria o partido na mão, se avançasse. Mas decidiu reservar-se para uma ocasião mais propícia e em que desse menos trabalho chegar a primeiro-ministro. Azar para ele. Durão Barroso é elite do PSD. Enquanto líder da oposição não tinha disponibilidade para saber se uma empresa como a Somague pagava dívidas de milhares de contos ao seu partido. Como primeiro-ministro, pediu sacrifícios aos portugueses e deixou o país nas mãos de Pedro Santana Lopes.
Existe a tentação de comentar a relevância da vitória de Luís Filipe Menezes. Mas qual? A relevância ainda não está lá. Há quem diga que Menezes não chega às eleições, há quem diga que ele não as ganha e há quem diga que ainda bem. Para já o que há a comentar não é a relevância da sua vitória mas a relevância da derrota dos seus adversários. Uma implica a outra, mas não são a mesma coisa.
Diz-se que as elites do PSD perderam por falta de comparência ou por acharem que tinham o partido na mão. Ambas as explicações significam isto: as elites do PSD, no fundo, não são tão elites quanto isso. Na tradição nacional, sempre esperaram que o seu lugar lhes fosse guardado e cedido: no conselho de administração como no conselho de ministros. Nos intervalos do poder, escolhiam um caseiro para tomar conta do partido.
Da mesma forma, estes legítimos representantes da respeitabilidade cavaquista continuam a achar que o PSD tem de ter lugar cativo na sociedade portuguesa, apenas porque sim. Sempre desprezaram a ideologia a favor de um suposto monopólio do "saber governar". Fizeram o elogio dos self-made men para depois os acusar de populismo. Fugiram das causas sociais e avisaram o seu povo para se manter afastado do "politicamente correcto". Repetiram durante anos que a iniciativa pública é incompetente e a iniciativa privada virtuosa. Lembraram que se fizermos tudo para beneficiar os investidores e os empresários, o dinamismo do mercado se encarregará de todos. Riram das graçolas de Alberto João Jardim e apresentaram-no como bom exemplo. Aliaram-se a Paulo Portas para governar o país.
Chegaram a eleger Santana Lopes, não em directas, mas num Conselho Nacional. E agora choram: mas este foi o partido que eles fizeram. Historiador

Rui Tavares, Público de hoje

Sunday, September 23, 2007

Sonhos (Paulo Moura)

Acordei tarde, deixei passar a hora do pequeno-almoço. Esfomeado, saí do hotel, mergulhei na massa de calor e multidão. Seria fácil comprar alguma coisa para comer, entre os milhares de vendedores que apregoam nas ruas de Bombaim, pensei. E lá estava um. Tinha, atrelada à bicicleta, uma carreta onde fritava uns pastéis redondos, recheados com vários molhos. Como uma fila de clientes de olhar ávido esperasse a sua vez, tive a certeza de que aqueles sonhos salgados e luzidios seriam deliciosos. Imaginei-me a saboreá-los, enquanto vagueava pelo trepidante meio-dia de uma das maiores e mais fascinantes cidades do mundo e isso deu-me ainda mais gula por aqueles bolinhos estaladiços.
Chegou a minha vez. O homem fez algumas perguntas que não entendi, mas respondi a tudo que sim. Pus-me a observar aquela maravilha da culinária de rua. E então começou o horror.
O cozinheiro começou a tirar, de um saco de plástico, pedaços de massa com que fazia bolinhas, com as palmas das mãos muito sujas. A massa era amarela no início, mas quando caía no óleo nauseabundo já ia castanha. Uma vez frito, o sonho era escorrido numa folha de jornal. O homem fazia-lhe então um buraco, com a comprida e imunda unha do polegar, e introduzia os molhos.
Eu fiquei à beira do vómito. Paguei, sorri e, segurando no pacote gorduroso com as pontas dos dedos, corri dali para fora, em direcção ao caixote do lixo mais próximo.
Mas não havia nenhum. Procurei algum recanto, algum beco sem ninguém, onde pudesse deitar fora aquela mixórdia repugnante. Nada. Em Bombaim, não há um centímetro quadrado que esteja vazio. A cidade tem quase 20 milhões de habitantes, metade dos quais vive na rua, em extrema pobreza. Por mais voltas que se dê, não é possível estar sozinho, nem deitar comida fora em frente de pessoas que passam fome.
É claro que poderia dar os meus sonhos a alguém, mas com que desculpa?
Durante horas, percorri as ruas de Bombaim, com os sonhos na mão. Tentei pousá-los disfarçadamente, mas havia sempre alguém a olhar. Pensei fingir que os deixava cair, mas decerto alguém correria atrás de mim para mos entregar. Passou-me pela cabeça voltar ao hotel, mas que pensaria a empregada de quarto quando lá encontrasse comida estragada?
Continuei a correr a cidade, desesperado. Havia esquecido completamente a fome e tudo o que tinha para fazer. Como desembaraçar-me daqueles sonhos era a minha obsessão. Fazia por passar despercebido, enchia-me de alheamento, à espera de um minuto de privacidade, para poder cometer o meu pequeno crime, o meu pequeno gesto de insolência necessária.
Uma menina de uns 12 anos aproximou-se. Deve ter pressentido a minha vulnerabilidade e disse, com uma voz lasciva: "Senhor, precisa de alguma coisa?" E percorreu o próprio corpo com a mão de unhas pintadas. "Precisa?"
Voltei-lhe as costas e desatei a correr. Fugi daquela rua, daquele bairro, mas cada vez havia mais gente à minha volta, e acabei por deter-me, extenuado, no meio de uma praça. Sentei-me no chão. Olhei o embrulho, já amarrotado pelo desespero. Abri-o. Lá estavam os sonhos. Peguei num e meti-o na boca. Tinha um sabor esquisito, mas não desagradável. Comi outro. E não me levantei enquanto não engoli, lentamente, um a um, todos os sonhos que levava na mão.

Paulo Moura no Público de hoje

Monday, September 03, 2007

Em defesa da discussão dos transgénicos

É curiosa a crispação de algumas entidades relativamente à acção desencadeada no Algarve contra o milho transgénico. O que leva essas pessoas a preocuparem-se exclusivamente com uma das facetas da mesma - a do atentado à propriedade privada?
A quantidade de tempo dedicado ao facto pela SIC, as resmas de texto elaboradas por Pacheco Pereira, as declarações ministeriais e até os recados presidenciais não condizem com aquilo que eu, cidadão comum, entendo da questão. Não está, para mim, em causa a questão do direito à propriedade privada: também sou proprietário e, mais do que isso, sou um cidadão que faz questão de respeitar a legalidade democrática.
Mas quanto ao respeito da propriedade, penso que todos acreditamos que as autoridades competentes aí estão para desencadear as acções adequadas. Além de que o proprietário - lesado - é certamente capaz, por si só, de apresentar as devidas queixas. Sei que a questão da propriedade da terra é das mais sensíveis da sociedade portuguesa, mas não é isso que desejo abordar agora. Só o refiro para deixar claro que a minha posição não é tão ingénua como pode parecer.
O essencial, porém, é aquilo que motivou a acção de protesto: o recurso aos organismos geneticamente modificados (OGM), no caso o milho transgénico.
Não tenho qualquer razão para duvidar da legalidade da plantação, nem sou polícia. Nem tenho que questionar o direito do agricultor proprietário da plantação a fazer essa escolha: tomou a opção dentro do quadro que a legalidade lhe oferecia, de acordo com os seus critérios de gestão.
O que me preocupa, isso sim, é o recurso aos OGM, mesmo que ele seja legal. Ou melhor: precisamente porque é legal.
A questão dos OGM tem passado um tanto em claro na opinião pública portuguesa. E devemos perguntar-nos porque é que ela tem preocupado os povos e as elites de tantos países. Serão todos diletantes, esses que pelo mundo fora se têm preocupado com isso? Ou somos nós ignorantes ao ponto de não nos preocuparmos? Se - como os arautos da cruzada antiacção não se cansam de sublinhar - não há unanimidade científica sobre os efeitos dos transgénicos, isso legitima que se avance, designadamente na concepção legislativa, sem discutir o assunto na sociedade? A apregoada capacidade decisória do Governo é motivo para escamotear os assuntos mais sensíveis da discussão pública?
Haverá mesmo algum tema em relação ao qual as comunidades científicas sejam unânimes? E, mesmo que houvesse, será que os cidadãos comuns, exteriores às comunidades científicas, não têm uma palavra a dizer? Quem elege os decisores? Quem paga os impostos?
Então, onde está a oportunidade para os cidadãos discutirem este problema? Agora que ele está legislado, parece que tudo o que se disser ou fizer contra o avanço dos OGM será contra a lei! Nestas observações não se pode, evidentemente, ver qualquer apologia do desrespeito da propriedade privada nem das leis do país. Mas não é sabido que as leis são fruto dum ambiente e de um processo social? São as leis imutáveis? Quantas vezes o legislador se encosta à falta de conhecimento público para impor soluções que doutro modo não passariam? Não é esse, mesmo, um dos critérios para aferir a distância a que o poder (em qualquer parte) se encontra da sociedade? Podemos servir-nos do álibi de que a "Europa" decidiu que não há inconveniente na utilização dos OGM dentro de determinadas condições, para justificar o teor da própria legislação nacional? Se assim fosse, porque se estaria a discutir a "Constituição Europeia", preparada nas costas dos cidadãos europeus? Se assim fosse, porque se discutiriam as causas do afastamento dos cidadãos relativamente aos produtores das medidas políticas (legislativas e outras)?
Aquilo que é legal não é indiscutível. Doutro modo as leis não evoluiriam.
Em Portugal assistimos, por exemplo, nas décadas de 80 e 90, a acções contra a eucaliptização indiscriminada, nem todas respeitadoras da legalidade instituída. No entanto, foi graças a tais acções (algumas também atentatórias da propriedade privada), que a eucaliptização selvagem foi sendo travada, dando origem a legislação mais atenta ao bem público. Mas nem nessa altura se viu a berraria a que temos assistido a propósito desta acção relativa ao milho transgénico!
Depois de o movimento social tornar os cidadãos mais conscientes da problemática dos OGM e de os cientistas terem reforçado a prudência com que declaram as "verdades científicas", poderão os ministros dum Governo democrático ser tão categóricos a garantir a inoquidade desses OGM? E será legítimo que se atenham à mera questão do respeito da legalidade? Ou será que deveriam vir ao encontro do pulsar da sociedade e entrar no debate (que eles próprios deviam promover ou, no mínimo, aceitar democraticamente)?
É tempo de debater o problema que era a própria razão de ser da acção criticada: porque são perigosos os OGM? Porque devemos todos envolver-nos nesse esclarecimento? Qual a necessidade de fazer prevalecer o princípio da precaução?
Depois de se dar a poluição genética das culturas tradicionais... será tarde: Inês é morta! E o ensurdecedor silêncio oficial não ajuda - antes contraria - uma tomada de consciência esclarecida por parte dos cidadãos - e, também, dos próprios decisores, mesmo que sejam ministros. Em nome do desenvolvimento da cidadania, gaste-se pelo menos tanto tempo quanto se tem gasto em torno deste caso a discutir os OGM: pelo meu lado, agradecerei, e creio que os nossos filhos também.
Se não, quem se ri são as multinacionais - essas, sim, sem rosto! - que vendem os OGM mais os pesticidas necessários para acompanhar as respectivas culturas, tudo à custa não apenas do bolso dos compradores, mas, pior, da saúde pública e do ambiente que é de todos e não pode ser substituído por outra coisa qualquer.
Preocupemo-nos menos com quem paga as despesas dos activistas (lembram-se quando a PIDE invocava que os democratas recebiam dinheiro da Rússia?) e mais com a razão que lhes possa assistir na defesa dum mundo melhor.

Victor Louro - Engenheiro silvicultor. Antigo deputado à AR - Jornal Público de hoje

Friday, June 01, 2007

"Palavras soltas"

No exame de Português do 9.º ano, os critérios de avaliação permitem que um aluno possa ter dois pontos (em cinco) com "muitas insuficiências" de natureza "ortográfica, lexical, morfológica" e "sintáctica". Ou seja, em última análise, permite que um aluno entre no secundário sem saber escrever. Basta que responda com "palavras soltas", se der uma ideia que percebeu a pergunta e sugerir vagamente a resposta. Não se compreende como um professor consegue adivinhar o sentido de "palavras soltas", com uma ortografia errada, e ainda por cima comparar o mérito, relativo e absoluto, dessas trapalhadas "verbais". Mas, segundo a sra. ministra da Educação, "há uma técnica", certamente miraculosa, para avaliar "competências de leitura e de interpretação". E o primeiro-ministro com certeza acredita.
Toda a gente conhece as mil e uma razões por que as crianças não sabem escrever. Pior do que isso, excepto um ou outro e-mail ou SMS, as crianças não precisam de escrever. Se o Estado suprimisse a disciplina de Português (e já agora o Latim, o Grego, a História e a Filosofia), nem a sociedade, nem o PIB sofriam muito. Suponho mesmo que não sofriam nada. Para a espécie de homem, e de mulher, que por aí crescentemente circula, as "palavras soltas" chegam e sobram. Quem viveu na época em que se escrevia (cartas, por exemplo) aprendeu que escrever é um exercício de investigação e de lógica; um exercício que obriga a definir, ordenar e desenvolver o que se pensa. E também uma tentativa para comover, convencer, informar ou instruir o próximo. A espécie de comunicação pessoal e colectiva que hoje se usa dispensa esse esforço.
Os critérios de avaliação do exame do nosso 9.º ano não passam de um sintoma de uma realidade maior e mais triste: o lento "regresso" do Ocidente a uma nova espécie de barbárie. Nunca se gastou tanto dinheiro em "cultura" e nunca a cultura foi tão universalmente desprezada. A classe média, que desde o século XV foi a sua portadora (e criadora) por excelência, está reduzida a viajar com a penetração de um boi (rico) que olha para um palácio. A linguagem pública (religiosa, política, jornalística, musical, literária, cinematográfica, universitária) empobrece dia a dia. A conversa, como arte, morreu, porque as pessoas não têm que dizer e muito pouco interesse em ouvir. O Estado anda a educar as nossas queridas criancinhas para este mundo. Que outra coisa seria de esperar?

Vasco Pulido Valente, Público de 1 de Junho de 2007

Friday, May 25, 2007

Estupidamente solidário

A inteligência e a insolidariedade andam de mãos dadas, na maior parte dos casos

Lembro-me bem que a seguir ao 25 de Abril, quando havia problemas, ninguém conhecia muito bem ninguém. A regra seguida era, as mais das vezes, "não me comprometam, que eu mal conheço a criatura".

A minha família esteve envolvida politicamente no 25 de Abril (antes e depois). Como muitas outras, teve problemas especialmente ao opor-se de forma activa à tentativa de desvio antidemocrático (e muitas vezes o foram). Mas o meu Pai tinha uma teoria interessante: devemos, nos momentos difíceis, procurar aliados com fortes princípios, mas não demasiadamente inteligentes. Quem é muito inteligente consegue sempre imaginar uma boa razão para não ser amigo e faltar à solidariedade pessoal sem, ilusoriamente, ferir os princípios. Essa justificação é não só uma desculpa para si próprio, mas também para os outros. Note-se que, também, não tem que ser uma atitude consciente, mas uma reacção instintiva de se pôr de fora: "Eu não me meto nos problemas dos outros", "realmente o que lhe têm vindo a fazer é chato, mas ele perdeu a razão na forma como reagiu"...

Com menos dramatismo, esta regra mantém-se verdadeira no nosso dia-a-dia. Podemos confiar em pessoas com fortes princípios e QI mediano, embora, também, não muito baixo; caso contrário, nem percebe o que se está a passar. Evidentemente que me orgulho de conhecer excepções a esta regra, mas conheço mais exemplos da sua veracidade, infelizmente.

É claro que na amizade há sempre uma dose de loucura que não se compadece com calculismos. Apoiar um tipo que está na mó de baixo é sincero; apoiar um ganhador também pode ser sincero, mas fica sempre a dúvida tanto em nós mesmos como nos outros.

A consciência desta regra, quase-sempre-verdadeira, levou-me a gostar de estar, por princípio, com a minoria. Para apoiar a maioria, em qualquer circunstância, penso sempre duas vezes se não estou a seguir o caminho fácil. Não faz de mim um homem feliz, mas um homem em paz e que não se envergonha de se ver ao espelho. É também por isso que sou da Académica, quando podia ser do Benfica ou do Porto, que ganham tudo. E porquê? Porque sim. Por que é que se é amigo de um amigo? Porque sim, é tudo.

Além disso, as opções morais no quotidiano raramente são decisões simples. O Judas é historicamente o estereótipo do traidor, embora, para mim, a ideia de ele se vender por 30 dinheiros seja factualmente difícil de admitir, por ser simples de mais. Será que Cristo escolheu um tipo tão mal formado que, tendo-O conhecido, O foi vender na primeira oportunidade? De qualquer forma, sujeitos que sejam iguais a este Judas não se encontram assim tão facilmente. O mundo real é muito mais subtil. E nem sempre estamos atentos.

Talvez até a história de Judas fosse algo diferente, mas nunca saberemos. Ainda há pouco foi publicado um romance curioso (mas não dramaticamente interessante, saliente-se) - O Evangelho segundo Judas - que nos dá uma interpretação alternativa. Alguém inteligente e que "trai", porque deseja ajudá-Lo, é transformado em bode expiatório, sendo os outros os verdadeiros traidores e, em especial, Pedro, que O negou três vezes.

Outra face desta moeda é o "empurrar de responsabilidades". Lembro-me, a propósito, de uma pequena história (que pode ficar como curiosidade para a História da guerra em África). Uma noite, talvez em 1972, quando me ia deitar, o meu Pai pediu-me para ficar com ele, porque havia algo de importante que iria acontecer lá para as duas da manhã. O caso era simples: tinha havido uma ofensiva em Angola e as nossas tropas estavam com problemas graves de munições, morteiros, granadas... A Força Aérea tinha-o informado, como chefe de gabinete do chefe do Estado-Maior, de que havia um 707 pronto a partir às duas da manhã, mas em sobrecarga ("as luzes vermelhas a piscar").

Com uma equipagem totalmente voluntária, o avião, dados os ventos, tinha que levantar voo sobre Lisboa. O perigo era evidente e queriam autorização superior. "Então perguntaste ao "chefe"?", inquiri. "Não, mandei eu próprio avançar; ele não poderia dizer outra coisa e, assim, se houver problema, a culpa é minha, ele pode dizer que não foi consultado." Como todos sabemos, correu bem e às duas da manhã vimos, da janela da nossa casa em Alvalade, a voar baixinho, o 707 sem problemas. Mas esta ideia de responsabilidade pessoal e institucional ficou-me marcada. Para o homem-económico dos modelos académicos, era o calculismo a funcionar contra o próprio, era um absurdo. Para os modelos da psicologia, é um comportamento de cidadania organizacional.

Penso que, sem darmos por isso, Deus ou o destino nos coloca todos os dias situações em que temos de escolher entre ser responsáveis, solidários e amigos ou sabiamente fugir às nossas responsabilidades. Sermos solidários é sê-lo por razões pouco inteligentes, ou seja, sem termos nada a ganhar, a não ser o respeito por nós próprios. É assim a vida e cada um escolhe a sua.

Luís Campos e Cunha, Público de 25.05.2007

Friday, April 06, 2007

As boas e os maus

Tal como as belas já não são vistas como eram, já é tempo de mudar a má fama dos mestres

Jorge de Sena, depois de zurzir longamente o romance Domingo à Tarde de Fernando Namora, rematava assim: "E concluamos com uma nota comprovativa da total isenção com que foi escrito este artigo: eu nunca li nenhum romance de Namora, e muito menos este de que me ocupei. De onde deve concluir-se que a diferença fundamental entre a literatura autêntica e a literatura de consumo está em que, para falarmos desta última, não é necessário lê-la."

O mesmo digo do programa A Bela e o Mestre no ar na TVI. Nunca o vi nem faço tenções de ver mas, como se trata de um programa de consumo, até de grande consumo, para falar dele nem preciso vê-lo. Contaram-me o pior e imagino até que possa ser pior do que me contaram.

O título remete para A Bela e o Monstro, um conto ancestral reescrito no século XVIII por Madame de Beaumont e que deu um bem conhecido filme. Mas as belas do programa pouco têm que ver com a menina do filme. Esta era até bastante inteligente, lia livros e, no castelo do monstro, ficou excitadíssima com a enorme biblioteca. E é a sensibilidade ligada à inteligência que a levou a amar o monstro, fazendo com que ele deixasse de o ser. Era bem diferente das raparigas estupidamente bonitas por fora e completamente ocas por dentro que imagino - repito que não vi - fazem as delícias dos voyeurs televisivos.

Já muita gente se insurgiu contra a imagem estereotipada e retrógrada da mulher que o programa transmite. A Bela e o Mestre é um verdadeiro regresso ao passado. No final do século XIX, Ramalho Ortigão, o macho lusitano que se bateu com Antero de Quental em duelo antes de se juntar aos "vencidos da vida", escrevia: "Pobres mulheres! Elas são-nos bem inferiores (...) pela anatomia dos ossos e dos músculos e pela constituição do cérebro. Elas têm a cabeça mais pequena, como as raças inferiores (...) não sabem compor óperas e nunca chegam a entender a matemática." Ramalho falava sem ponta de ironia: a mulher era considerada por ele e pelos contemporâneos um ser inferior. Sabemos hoje que estava redondamente enganado, e os seus descendentes intelectuais, que ainda não passaram do século XIX, estão tão enganados como ele. Ou melhor: estão ainda mais enganados, pois durante o tempo que passou ficou demonstrada a desrazão ramalheana. Quanto à ópera, não sei o suficiente, mas posso assegurar que alguns dos nossos melhores matemáticos são mulheres. Algumas bastante belas, se é que isso interessa.

Um mestre aparece identificado com um monstro na versão portuguesa deste telelixo. Como muitos e muito bem já defenderam as mulheres da acusação de ignorância, mas ainda ninguém defendeu os mestres, não da acusação de fealdade, mas da de maldade que está implícita no título português (um monstro é não só feio como mau!), venho eu defendê-los. Apesar de não ter o grau de mestre, tenho o de doutor, e sinto-me no mesmo saco. As belas são as boas e nós somos os maus. Mas que mal fizemos nós? E por que motivo o mestre ou, por maioria de razão, o doutor aparece associado ao terror e ao mal?

Esta injusta associação tem, de facto, uma longa história, na qual se incluem o Doutor Fausto, um homem de ciência que fez um pacto com o demónio, e o Frankenstein, um estudante de ciências que criou um monstro no laboratório. A propósito, foi uma rapariga inglesa de 19 anos, Mary Shelley, que escreveu, pouco antes de Ramalho nascer, Frankenstein, um clássico universal, ao passo que o escritor português, goste-se ou não dele, nunca escreveu uma obra que atravessasse fronteiras.

Mas muito tempo passou desde o Doutor Fausto e o Frankenstein. E, assim como as belas já não são vistas como eram, já é tempo de mudar a má fama dos mestres!

Carlos Fiolhais, Público 30.03.2007

Sunday, February 11, 2007

Segunda oportunidade

Esta semana convidaram-me para falar aos alunos de uma escola secundária. O tema era a conquista de Lisboa aos mouros, em 1147, mas os jovens estudantes estavam mais interessados noutros assuntos: queriam histórias de reportagem de guerra.Havia turmas do 7º ano ao 12º e os professores tinham-nos industriado sobre as perguntas a fazer, que deveriam incidir nas matérias que estavam a ser leccionadas. Mas mal se aperceberam de que tinham à sua frente alguém que estivera no Iraque, no Afeganistão e noutras zonas de conflito, esqueçeram completamente o programa de História.
- Qual foi a situação mais perigosa em que já esteve? - perguntou um.
- Quando teve mais medo?
- Já esteve quase a morrer?
- Viu matar muita gente?
- Já teve de fugir?
- Havia sítios onde se esconder?
- Qual foi a coisa mais horrorosa que viu?
- Alguma vez pegou numa metralhadora? Qual é a sensação?
Era uma daquelas escolas situadas entre vários bairros considerados "problemáticos". Grande parte das turmas eram formadas por alunos com situações especiais, segundo um programa designado "Segunda Oportunidade". Os docentes explicaram-me que, na maior parte do tempo, a sua função é, mais do que ensinar os conteúdos das respectivas disciplinas, ensinar os jovens a comportar-se.
- Gosta da guerra? - perguntou de repente uma rapariga loura de uns 16 anos, num tom assumidamente desafiador.
Os professores apressaram-se a esclarecer que ela era russa e que tinha vivido situações de grande violência. Eu declarei que odiava todo o tipo de guerra e que até tinha sido objector de consciência, para não ter de cumprir o serviço militar. Mas a rapariga levantou-se, apontou-me um dedo e respondeu, quase aos gritos:
- Se não gostasse não ia para as guerras! - sentou-se e começou a pintar os lábios com baton.
Sentindo a provocação, expliquei o melhor que pude a diferença entre estar numa guerra por achar importante escrever sobre ela e estar numa guerra por puro prazer. Mas ela, ostensivamente, já não me ouvia. Pintava os lábios e falava com as amigas.
Um miúdo de uns 12 anos e cabelo em cima dos olhos levantou-se para me interromper:
- O Saddam e o Bin Laden gostam da guerra!
Eu ia aproveitar pedagogicamente a deixa para definir a guerra como uma actividade só apreciada por homens sem escrúpulos, mas o miúdo não me deu tempo. Acrescentou logo:
- É por isso que eu gosto deles! Eu também adoro a guerra. Pegar uma arma e desatar a disparar balásios. Bang! Bang! Bang!
Uma menina de origem indiana quis saber se eu alguma vez tinha sido acusado de plágio. Lá respondi que nunca ninguém me tinha acusado de plágio, mas o garoto fã de Bin Laden recusou-se a acreditar:
- Acho que você já foi acusado de plágio!
Um miúdo africano que os professores esclareceram ser oriundo de Cabinda pôs o dedo no ar para fazer uma pergunta sobre a guerra de Cabinda, mas desistiu.
- Não, não posso fazer esta pergunta! - disse ele, aflito.
- E o Sousa Tavares, fez plágio ou não? - insistiu o aprendiz de Saddam.
Não sei, mas acho que não, comecei eu.
- Fez plágio, sim senhor. Eu sei que fez! - respondeu o fedelho e abandonou a sala batendo com a porta.
"Ele faz isto para chamar a atenção", explicaram-me depois os professores, com uma expressão de inexplicável ternura. "Nem sequer é um miúdo violento".
A minha vénia humilde aos professores da Segunda Oportunidade.

Paulo Moura, jornalista - Público - 4 de Fevereiro de 2007

Saturday, January 20, 2007

O referendo

Não gosto do referendo e sempre o achei perigoso e nocivo. Primeiro, porque diminuiu e desvaloriza a representação política. Segundo, porque inevitavelmente tende a deturpar o debate e a vontade do eleitorado. Nenhum problema complicado tem uma resposta de "sim" ou "não". E, como não tem, os dois lados de qualquer campanha, como, no caso, a campanha sobre o aborto, acabam por cair na "simplificação terrível" da demagogia. Basta abrir os jornais. José Pinto Ribeiro, por exemplo, disse isto: "Um ovo não tem os mesmos direitos de um frango." Fora o mau gosto, quem falou em frangos? Mas Pinto Ribeiro não foi o único. César das Neves, no seu estilo hiperbólico, avisou que "a vitória do "sim"" torna o aborto tão "normal" como comprar um "telemóvel". Uma ideia que não se distingue pela sua especial humanidade. Gentil Martins quer punir as mulheres que reincidirem em abortar. E até houve um bispo que resolveu comparar o aborto com o enforcamento de Saddam Hussein. Deus lhe perdoe.
Significativamente, os grandes militantes do "sim" e do "não" vêm quase todos da classe média. Sucede que, para a classe média, o aborto não é um problema. Conhecendo bem os meios de contracepção e a "pílula do dia seguinte", quase nenhuma mulher (ou casal) da classe média é apanhada (ou apanhado) na necessidade de escolher entre um filho e um aborto. E, se as coisas por negligência ou acidente chegarem ao pior, não recorrem com certeza ao "vão de escada". Não admira, por isso, que vejam no aborto primariamente uma questão moral, de justiça social ou dos direitos da mulher e não hesitem em entrar numa polémica de "intelectuais", abstracta e violenta e, ainda por cima, incompreensível para quem, de facto, aborta.
Mas, pior do que o resto, é que, a pretexto de permitir uma decisão directa do "povo", o referendo criou pouco a pouco um confronto azedo entre a Igreja e a esquerda. Ou, se quiserem, entre a esquerda (com o PS à frente) e os católicos. Não se percebe como, apesar da prudência do patriarca, a Igreja se deixou envolver numa causa puramente política, que não contribui para a reafirmação da sua doutrina (e pode, pelo contrário, mostrar o desinteresse do país por ela) e que, ganhe o "sim" ou ganhe o "não", nada, ou quase nada, mudará na prática. Como não se percebe que o PS, excepto por exorcismo, se meta numa querela que só serve para promover o Bloco. A Igreja julga que pode fechar a porta ao aborto e os políticos que se livraram de um grande sarilho. Erro deles. Com o "sim" ou o "não", o referendo é o princípio de uma longa guerra, não é o fim.

Vasco Pulido Valente, Público - 20 de Janeiro de 2007