Saturday, September 16, 2006

O primeiro dia

A princípio é simples anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se come-se e alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se um descanso por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Sérgio Godinho

Saturday, September 09, 2006

Imagine

Imagine there's no Heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today

Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace

You may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world

You may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will live as one

John Lennon

Wednesday, August 30, 2006

IF

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don't deal in lies,
Or, being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build 'em up with wornout tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on";

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man my son!

Rudyard Kipling

Sunday, August 27, 2006

Zumbido



Comfortably numb

Hello, hello, hello
Is there anybody in there?
Just nod if you can hear me.
Is there anyone at home?

Come on, come on down,
I hear you’re feeling down.
Well I can ease your pain,
Get you on your feet again.

Relax, relax, relax
I need some information first.
Just the basic facts.
Can you show me where it hurts?

There is no pain, you are receding.
A distant ship's smoke on the horizon.
You are only coming through in waves.
Your lips move, but I can’t hear what you’re saying.

When I was a child, I had a fever.
My hands felt just like two balloons.
Now I’ve got that feeling once again.
I can’t explain, you would not understand.
This is not how I am.

I have become comfortably numb.

I have become comfortably numb.

OK, OK, OK
Just a little pin prick.
There’ll be no more, aaaaaaaaaaaahhhhhhhhh,
But you may feel a little sick.

Can you stand up, stand up, stand up.
I do believe it's working good.
That’ll keep you going for the show.
Come on, it’s time to go.

There is no pain, you are receding.
A distant ship's smoke on the horizon.
You are only coming through in waves.
Your lips move, but I can’t hear what you’re saying.

When I was a child, I caught a fleeting glimpse
Out of the corner of my eye.
I turned to look, but it was gone.
I cannot put my finger on it now.
The child has grown, the dream is gone.

I have become comfortably numb.


Roger Waters, David Gilmour - The Wall (1979)

Monday, August 21, 2006

Não é verdade

Cai, como antigamente, das estrelas
Um frio que se espalha na cidade.
Não é noite nem dia, é o tempo ardente
Da memória das coisas sem idade.

O que sonhei cabe nas tuas mãos
Gastas a tecer melancolia:
Um país crescendo em liberdade,
Entre medas de trigo e alegria.

Porém a morte passeia nos quartos,
Ronda as esquinas, entra nos navios,
O seu olhar é verde, o seu vestido branco,
Cheiram a cinza os seus dedos frios.

Entre um céu sem cor e montes de carvão
O ardor das estações cai apodrecido;
Os mastros e as casas escorrem sombra,
Só o sangue brilha endurecido.

Não é verdade tanta loja de perfumes,
Não é verdade tanta rosa decepada,
Tanta ponte de fumo, tanta roupa escura,
Tanto relógio, tanta pomba assassinada.

Não quero para mim tanto veneno,
Tanta madrugada varrida pelo gelo,
Nem olhos pintados onde morre o dia,
Nem beijos de lágrimas no meu cabelo.

Amanhece.
Um galo risca o silêncio
Desenhando o teu rosto nos telhados.
Eu falo do jardim onde começa
Um dia claro de amantes enlaçados.


Eugénio de Andrade

Sunday, August 13, 2006

Todo o Mundo

Personagens: Ninguém, Todo-o-mundo, Berzebu e Dinato.
[Estão em cena dois diabos, Berzebu e Dinato, este preparado para escrever]
Entra Todo o Mundo, homem como rico mercador, e faz que anda buscando algua cousa que se lhe perdeu. E logo após ele um homem vestido como pobre. Este se chama Ninguém, e diz:

NinguémQue andas tu i buscando
Todo o Mundo Mil cousas ando a buscar:
delas não posso achar,
porém ando perfiando
por quão bom é perfiar.
NinguémComo hás, nome, cavaleiro?
Todo o MundoEu hei nome Todo o Mundo,
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro,
e sempre nisso me fundo.
NinguémE eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência.
Berzebu para DinatoEsta é boa experiência!
Dinato, escreve isto bem.
DinatoQue escreverei, companheiro?
BerzebuQue Ninguém busca consciência,
e Todo o Mundo dinheiro.
Ninguém para Todo o MundoE agora que buscas lá?
Todo o MundoBusco honra muito grande.
NinguémE eu virtude, que Deos mande
que tope co' ela já.
Berzebu para DinatoOutra adição nos acude:
escreve logo e a fundo,
que busca honra Todo o Mundo
e Ninguém busca virtude.
NinguémBuscas outro mor bem qu' esse?
Todo o MundoBusco mais quem me louvasse
tudo quanto eu fezesse
NinguémE eu quem me repreendesse
em cada coisa que errasse.
Berzebu para DinatoEscreve mais.
DinatoQue tens sabido?
BerzebuQue quer em extremo grado
Todo o Mundo ser louvado
e Ninguém ser repreendido.
Ninguém para Todo o MundoBuscas mais, amigo meu?
Todo o MundoBusco a vida e quem ma dê.
NinguémA vida não sei que é,
a morte conheço eu.
Berzebu para DinatoEscreve lá outra sorte
DinatoQue sorte?
BerzebuMuito garrida.
Todo o Mundo busca a vida,
e Ninguém conhece a morte.
Todo o Mundo para NinguémE mais queria o paraíso,
sem mo ninguém estorvar.
NinguémE eu ponho-me a pagar
quanto devo pera isso.
Berzebu para DinatoEscreve com muito aviso.
DinatoQue escreverei?
BerzebuQue Todo o Mundo quer paraído
e Ninguém paga o que deve.
Todo o Mundo para NinguémFolgo muito de enganar,
e mentir naceo comigo.
NinguémEu sempre verdade digo,
sem nunca me desviar.
Berzebu para DinatoOra escreve lá, compadre
não sejas tu preguiçoso!
DinatoQuê?
BerzebuQue Todo o Mundo é mentiroso,
e Ninguém diz a verdade.
Ninguém para Todo o MundoQue mais buscas?
Todo o MundoLisonjar.
NinguémEu sou todo desengano.
Berzebu para DinatoEscreve, ande la mano!
DinatoQue me mandas assentar?
BerzebuPõe aí mui declarado,
não te fique no tinteiro
Todo o Mundo é lisonjeiro,
e Ninguém desenganado.


Gil Vicente, in Auto da Lusitânia (1532)

Thursday, August 10, 2006

O lugar do começo

Primeiro havia
a noite fria
depois a terra
que o céu abraçou
e os dois eram um só
enquanto o tempo
não os separou

Depois o vento
um vento forte
soprou as cores
e imaginou
as coisas frágeis e leves
e a pouco e pouco
o mundo acordou

Não é tarde
fico em casa
conta-me tudo outra vez

Perto
longe
aonde estiver
hei-de sempre ter
um lugar
pra ti

Por fim os homens
ninfas e deuses
que percorriam
o céu e a terra
a tudo deram um nome
e os sons tocaram
as mais altas estrelas

Não é tarde
fico em casa...


Xana, O lugar do começo - Acordar - Rádio Macau

Tuesday, August 08, 2006

Jeito estúpido

Eu sei que eu tenho um jeito
Meio estúpido de ser
E de dizer coisas que podem
Magoar e te ofender
Mas cada um tem o seu jeito
Todo próprio de amar
E de se defender

Você me acusa e só me preocupa
Agrava mais e mais a minha culpa
E eu faço e desfaço, contrafeito
O meu defeito é te amar demais.

Palavras são palavras
E a gente nem percebe
O que disse sem querer
E o que deixou pra depois
Mas o importante é perceber
Que a nossa vida em comum
Depende só e unicamente de nós dois

Eu tento achar um jeito pra explicar
Você bem que podia me aceitar
Eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser
Mas é assim que eu sei te amar.

Isolda/Milton Carlos

Thursday, July 27, 2006

O Náufrago

Foi um suicídio longamente premeditado, pensei, e não um acto espontâneo de desespero.

O Glenn Gould, o nosso amigo e o mais importante virtuoso do piano do século, também só fez 51 anos, pensava eu ao entrar na estalagem. Só que esse não se matou como o Wertheimer mas morreu, como se costuma dizer, de morte natural. Quatro meses e meio em Nova Iorque e sempre, sempre as Variações de Goldberg e A Arte da Fuga, quatro meses e meio de «Klavierexerzitien»* como o Glenn Gould dizia repetidamente e sempre só em alemão, pensava eu.
Há vinte e oito anos exactos havíamos morado em Leopoldskron e estudado com o Horowitz, e (no caso do Wertheimer e no meu, não no de Glenn Gould naturalmente) com o Horowitz tínhamos aprendido mais durante um Verão completo, Verão em que chovera continuamente, do que durante os oito anos anteriores do Mozarteum e da Academia de Viena. O Horowitz tinha reduzido a zero todos os nosso professores. Mas esses horríveis professores foram necessários para nós (...)

*Exercícios de piano (Nota da tradutora).


Thomas Bernhard, O Náufrago (Relógio d'Água - pág. 7 - Tradução de Leopoldina Almeida)

Monday, July 10, 2006

Quadro Abstracto

[...]

- Eu não compreendo as mulheres. Quanto mais as conheço, menos as compreendo. Falam muito, com muitos pormenores, não se calam, são umas perfeitas gralhas. É muito cansativo. A Lena, a minha segunda mulher, era ao contrário. Deprimia, estava sempre de trombas. Primeiro era da gravidez, depois era dos gémeos que não a deixavam dormir, se dormia de mais era porque ficava com dores de cabeça, se dormia de menos andava aos berros pela casa, e nunca sabia nada, eu perguntava-lhe o que é que ela achava disto ou daquilo e ela respondia "não sei". Sempre. Respondia a tudo "não sei". Esta agora que se chama Érnia, a minha actual mulher, então sabe tudo, tem opiniões sobre tudo, anda sempre toda contente, é insuportável.

[...]

Luísa Costa Gomes - Quadro Abstracto in Ler nº 51 (pág. 52) ou Império do Amor - contos - ed. Tinta Permanente (pág. 89)

Friday, July 07, 2006

Sete anos de pastor

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

Luís Vaz de Camões

Saturday, July 01, 2006

A tradução

Ao folhear com entusiasmo e ingenuidade a versão inglesa de certo filósofo chinês, dei com esta memorável passagem:

A um condenado à morte não lhe importa bordejar um precipício, porque renunciou à vida.

Neste ponto, o tradutor colocou um asterisco e advertiu-me que a sua interpretação era preferível à de outro sinólogo rival que traduzia desta maneira:

Os utilizadores destroem as obras de arte, para não terem de julgar as suas belezas e os seus defeitos.

Então, como Paolo e Francesca, deixei de ler. Um misterioso cepticismo tinha-se apoderado da minha alma.

J. L. Borges

Pablo de Santis, A tradução (Asa, 2000 - pag.7)


Thursday, June 29, 2006

Di-gestão


Scott Adams, Expresso (21-10-2004)

Monday, June 26, 2006

La bombe humaine

Je veux vous parler de l'arme de demain
Enfantée du monde, elle en sera la fin
Je veux vous parler de moi, de vous
Je vois à l'intérieur, des images, des couleurs
Qui ne sont pas à moi, qui parfois me font peur
Sensations qui peuvent me rendre fou
Nos sens sont nos fils
nous pauvres marionnettes
Nos sens sont le chemin qui mène droit a nos têtes

La bombe humaine, tu la tiens dans ta main
Tu as l'détonateur juste à côté du cœur
La bombe humaine
C'est toi, elle t'appartient
Si tu laisses quelqu'un prendre en main ton destin, c'est la fin, la fin

Mon père ne dort plus sans prendre ses calmants
Maman ne travaille plus sans ses excitants
Quelqu'un leur vend de quoi tenir le coup
Je suis un électron, bombardé de protons
Le rythme de la ville, c'est ça mon vrai patron
Je suis chargé d'électricité
Si par malheur, au cœur de l'accélérateur
J'rencontre une particule qui m'mette de sale humeur
Oh, faudrait pas que j'me laisse aller
Faudrait pas que j'me laisse aller, non

La bombe humaine, tu la tiens dans ta main
Tu as l'détonateur juste à côté du cœur
La bombe humaine,

C'est toi elle t'appartient
Si tu laisses quelqu'un prendre en main ton destin, c'est la fin

Bombe humaine, c'est l'arme de demain
Bombe humaine, tu la tiens dans ta main
Bombe humaine
C'est toi, elle t'appartient
Si tu laisse quelqu'un prendre ce qui te tient, c'est la fin, la fin

Jean-Louis Aubert, Crache ton Venin (1979) - Téléphone

Friday, June 23, 2006

Português "moderno"

(...)

Para ter algum préstimo, a Academia (das Ciências de Lisboa) devia denunciar a verborreia que de facto usamos e não devíamos.

É recorrente, é fácil, o gozo devotado ao jargão do futebol (o famoso "futebolês", já de si um neologismo imbecil). E o resto? E quem se preocupa com o imenso jargão em que toda a língua parece transformada, repleta de incorrecções semânticas, chavões, vocábulos fora do contexto e puros disparates?

É que não há paciência para a exposição "patente" no "multiusos", a qual, aliás, se "insere" numa "dinâmica" de "cariz" cultural. Não há paciência para autarcas que "fazem cidade" com grande "empenhamento", "nomeadamente", claro, "ao nível" das "sustentabilidades". Não há paciência para médicos que nos mandam "fazer Aspirina" e "fazer gelo" como se fôssemos um laboratório farmacêutico ou uma arca frigorífica. Não há paciência para escritores que "investem" na "vertente" dos "afectos". Não há paciência para cançonetistas cujo último disco "reflecte" determinadas "vivências". Não há paciência para "programadores" televisivos que "apostam" na "multiplicidade" dos "conteúdos". Não há paciência para "vipes" que, talvez para "serem iguais a si próprios", precedem cada grunhido com um "é assim". E não há paciência para governantes que anunciam "desígnios", para deputados que "assumem desafios", e para reles peões partidários que vêem o mundo através da sua "óptica".

Ou seja, "em termos" de Português, não há português em termos. Descemos do idioma de António Vieira a uma babugem retorcida e ridícula.

(...)

Alberto Gonçalves, Sábado (edição de 4 de Maio) pág. 98

Wednesday, June 21, 2006

Prometeu

A lenda tenta explicar o que não se pode explicar; porque vem de um fundamento de verdade, tem de terminar no que não se pode explicar.
De Prometeu conhecemos quatro lendas. Diz a primeira que ele foi agrilhoado ao Cáucaso por ter traído os deuses aos homens e que os deuses enviaram águias que lhe devoravam o fígado que se renovava sem fim.
Diz a segunda que, com a dor das bicadas que o atormentavam, Prometeu se apertou cada vez mais contra a rocha até se tornarem um.
Diz a terceira que passados milhares e milhares de anos a sua traição foi esquecida, os deuses esqueceram, as águias, ele próprio.
Diz a quarta que todos se cansaram do que já não tinha fundamento. Os deuses cansaram-se, as águias. A ferida fechou-se cansada.
Restou o rochedo inexplicável.

Franz Kafka - Contos - Relógio de Água(2005) pág. 41

Tuesday, June 20, 2006

Les mots

            C'est étrange,
            je n'sais pas ce qui m'arrive ce soir,
            Je te regarde comme pour la première fois.
Encore des mots toujours des mots
les mêmes mots
            Je n'sais plus comment te dire,
Rien que des mots
            Mais tu es cette belle histoire d'amour...
que je ne cesserai jamais de lire.
Des mots faciles des mots fragiles
C'était trop beau
            Tu es d'hier et de demain
Bien trop beau
            De toujours ma seule vérité.
Mais c'est fini le temps des rêves
Les souvenirs se fanent aussi
quand on les oublie
            Tu es comme le vent qui fait chanter les violons
            et emporte au loin le parfum des roses.
Caramels, bonbons et chocolats
            Par moments, je ne te comprends pas.
Merci, pas pour moi
Mais tu peux bien les offrir à une autre
qui aime le vent et le parfum des roses
Moi, les mots tendres enrobés de douceur
se posent sur ma bouche mais jamais sur mon cœur
            Une parole encore.
Parole, parole, parole
            Ecoute-moi.
Parole, parole, parole
            Je t'en prie.
Parole, parole, parole
            Je te jure.
Parole, parole, parole, parole, parole
encore des paroles que tu sèmes au vent
            Voilà mon destin te parler....
            te parler comme la première fois.
Encore des mots toujours des mots
les mêmes mots

            Comme j'aimerais que tu me comprennes.
Rien que des mots
            Que tu m'écoutes au moins une fois.
Des mots magiques des mots tactiques
qui sonnent faux
            Tu es mon rêve défendu.
Oui, tellement faux
            Mon seul tourment et mon unique espérance.
Rien ne t'arrête quand tu commences
Si tu savais comme j'ai envie
d'un peu de silence
            Tu es pour moi la seule musique...
            qui fit danser les étoiles sur les dunes
Caramels, bonbons et chocolats
            Si tu n'existais pas déjà je t'inventerais.
Merci, pas pour moi
Mais tu peux bien les offrir à une autre
qui aime les étoiles sur les dunes
Moi, les mots tendres enrobés de douceur
se posent sur ma bouche mais jamais sur mon cœur
            Encore un mot juste une parole
Parole, parole, parole
            Ecoute-moi.
Parole, parole, parole
            Je t'en prie.
Parole, parole, parole
            Je te jure.
Parole, parole, parole, parole, parole
encore des paroles que tu sèmes au vent
            Que tu es belle !
Parole, parole, parole
            Que tu est belle !
Parole, parole, parole
            Que tu es belle !
Parole, parole, parole
            Que tu es belle !
Parole, parole, parole, parole, parole
encore des paroles que tu sèmes au vent


Paroles et Musique: Michaele, M.Chiosso, G.Ferrio 1973

Sunday, June 18, 2006

O sangue

Levando um velho avarento
Uma pedrada num olho,
Pôs-se-lhe no mesmo instante
Tamanho como um repolho.

Certo doutor, não das dúzias,
Mas sim médico perfeito,
Dez moedas lhe pedia
Para o livrar do defeito.

«Dez moedas! ( diz o avaro )
Meu sangue não desperdiço:
Dez moedas por um olho!
O outro dou eu por isso.»


Manuel Maria Barbosa du Bocage

Saturday, June 10, 2006

África minha

«Eu tinha uma fazenda em África...». É esta a primeira frase de uma narrativa que este filme conta com a inteligência de saber mostrar que a primeira frase de uma história é sempre e irrecuperavelmente última de outra coisa.
Eduardo Prado Coelho, Expresso (1980 e tal)